Explorar a investigação em Portugal: menções honrosas da 5ª edição do Prémio Rui Osório de Castro / Millennium BCP

Este artigo faz parte de um conjunto de reportagens que pretende dar a conhecer os projetos distinguidos pelo Prémio Rui Osório de Castro / Millennium BCP. Saiba mais aqui.

Desde 2017, a Fundação Rui Osório de Castro, com o apoio da Fundação Millennium, atribui o Prémio Rui Osório de Castro / Millennium BCP, uma iniciativa que visa o desenvolvimento de projetos e iniciativas inovadoras na área da Oncologia Pediátrica.

Para além de um prémio no valor de 15 mil euros ao projeto vencedor, são também entregues duas Menções Honrosas, como forma de reconhecimento pela qualidade dos projetos apresentados.

“Todos os anos, o júri do Prémio Rui Osório de Castro/Millennium BCP tem muita dificuldade em escolher os projetos vencedores, uma vez que todos eles”, nas palavras de Cristina Potier, Diretora-Geral da FROC, “são maravilhosos”.

O projeto encabeçado por Jacinta Serpa, vencedor de uma Menção Honrosa na 5ª edição desta iniciativa, não foi exceção.

O projeto, intitulado “Terapia Dirigida para Astrocitomas Pediátricos com Base no Metabolismo da Glutamina”, nasceu da colaboração entre três instituições nacionais: o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (Jacinta Serpa e Filipa Martins), o Instituto Português de Oncologia Gentil Martins (IPO-Lisboa; Marta Pojo e Lúcia Roque) e o Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade de Lisboa (Luís Gonçalves).

Este estudo teve como objetivo tentar desenvolver novas terapias no tratamento de astrocitomas pediátricos com base nas adaptações metabólicas das células tumorais.

Os astrocitomas cerebrais constituem cerca de 40% do total de tumores cerebrais diagnosticados em crianças; em alguns casos, aqueles “em que isso é possível, as crianças são submetidas a cirurgia”; noutros casos, os médicos recorrem ainda a tratamentos de quimioterapia e a radioterapia.

“Os astrocitomas de alto grau apresentam uma mortalidade muito elevada, isso porque, na maioria dos casos, a cirurgia não é possível (ou não é curativa) e também porque não existe uma terapêutica especifica e eficaz para controlar esta doença”, explicou Jacinta Serpa.

“A adaptação metabólica permite a sobrevivência das células tumorais num determinado órgão, o que promove o estabelecimento de um tumor. No contexto do cérebro, o ciclo glutaminérgico é importante no funcionamento do órgão em si, não só, para a manutenção da sobrevivência das células normais, mas também para a produção dos neurotransmissores”.

De acordo com a investigadora, o ciclo glutaminérgico “é uma simbiose metabólica entre os astrócitos e os neurónios, na qual os astrócitos recolhem glutamato do microambiente, transformam-no em glutamina e libertam-na para o exterior”.

Posteriormente, “essa glutamina é recolhida pelos neurónios, que a utilizam para se manterem vivos, através da biossíntese e da bioenergética e também da produção de neurotransmissores”.

“Essa produção de neurotransmissores vai libertar glutamato no microambiente, que será novamente recolhido pelos astrócitos no sentido de produzir mais glutamina” – isto porque os neurónios não têm capacidade de produzir glutamina.

Quando se fala em astrocitomas, que, “em princípio, serão tumores malignos que têm como célula de origem os astrócitos”, essas células malignas perdem a capacidade de produzir glutamina e passam a estar dependentes da importação de glutamina a partir do microambiente do órgão, neste caso, do tumor.

“Esta glutamina é muito importante, principalmente para a bioenergética, que vai manter a sobrevivência do tumor, e que vai tornar possível o estabelecimento da doença e a sua progressão”.

Jacinta Serpa explica que as informações sobre o metabolismo tumoral “evoluíram muito ao longo das últimas duas décadas”, depois de um longo período de estagnação.

Hoje em dia, sabe-se que a glucose é muito importante na vida da célula tumoral, sustentando, predominantemente, a produção de biomassa: “isto significa que contribui, em grande parte, para a proliferação das células, ou seja, as células conseguem multiplicar-se e conseguem fazer com que o tumor aumente de tamanho, o que acaba por levar à progressão da doença”.

É também do conhecimento dos cientistas que a glutamina é o principal substituto da glucose na componente bioenergética; isto é, “a glutamina pode ser utilizada para produzir energia, embora seja também parcialmente utilizada na produção de biomassa. Ainda assim, na maioria dos contextos tumorais, de células malignas, é a principal moeda energética que as células podem utilizar”.

Tendo em conta todas estas bases científicas, a equipa de investigação delineou a sua hipótese, de forma a tentar perceber se, de facto, “ao diminuir a biodisponibilidade de glutamina no microambiente do tumor, seria possível induzir a morte das células malignas e, consequentemente, controlar a doença”.

A vencedora de uma das Menções Honrosas da 5ª edição do Prémio Rui Osório de Castro/Millennium BCP, explicou que, caso o seu projeto fosse o vencedor, o valor monetário seria “utilizado para o desenvolvimento de um projeto in vitro que iria utilizar linhas celulares de astrocitomas”, algumas disponíveis comercialmente, outras são derivadas de doentes.

Os cientistas iriam caracterizar essas linhas celulares relativamente aos seus perfis metabólicos; depois, essas linhas celulares seriam submetidas a um tratamento com glutaminase, “uma enzima que degrada a glutamina, ou seja, que diminui a disponibilidade da glutamina”.

“Desta forma, seria possível observar se esse tratamento iria provocar a morte destas células malignas ou se, por outro lado, estas células possuem uma capacidade de adaptação e iriam conseguir escapar a este tratamento”.

“Este primeiro projeto”, explicou Jacinta Serpa, “seria um primeiro passo para se poder aprofundar o estudo e depois, posteriormente, promover ensaios in vivo e poder-se formalizar um estudo pré-clínico no sentido de comprovar e validar uma terapêutica que podia ser utilizada casos de astrocitomas”.

O projeto “Terapia Dirigida para Astrocitomas Pediátricos com Base no Metabolismo da Glutamina” faz parte de um projeto ainda maior, que a equipa de investigadores pretende desenvolver juntamente com as três instituições que colaboraram neste primeiro trabalho e também com Vasco Bonifácio do Instituto Superior Técnico, “onde o objetivo é adaptar nanopartículas que se sabe serem capazes de atravessar a barreira hematoencefálica – a primeira barreira anatómica que pode impedir a chegada de fármacos ao cérebro”.

Como essas nanopartículas conseguem atravessar a barreira hematoencefálica, os cientistas iriam utilizá-las como veículos para transportar inibidores das duas principais vias metabólicas que acreditam serem vitais para a sustentação da vida das células tumorais – a glicólise e a glutaminólise.

Assim, atuando de forma especifica nas células tumorais, os cientistas acreditam que seriam capazes de perturbar a sobrevivência destas células e induzir a sua morte, o que se traduziria numa terapêutica mais especifica e eficaz no controlo dos tumores cerebrais malignos.

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Para saber mais informações sobre o prémio Prémio Rui Osório de Castro / Millennium BCP , clique aqui.

Fonte: Fundação Rui Osório de Castro

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