DIPG: a história de Levi, um menino que irá ajudar muitas outras crianças

Faltavam dois dias para o dia 25 de dezembro, o dia preferido Levi Wheeler, um menino australiano, de apenas 8 anos.

“O Pai Natal já está quase a chegar”, disse-lhe a sua mãe, Kathryn Wakelin, enquanto gravava um vídeo no seu telemóvel, onde aparecia agarrada ao menino.

Um ano antes, no final de 2017, o rapaz, louco por futebol, tinha sido diagnosticado com glioma pontino intrínseco difuso (DIPG), um tipo particularmente agressivo de cancro cerebral.

“Eu amo-te mãe. A ti, ao pai e aos manos”, disse Levi naquele dia, a sorrir, com a voz fraca de tanta dor.

Levi e a sua mãe, Kathryn Wheeler. – Fonte: Levi´s Project

Uma semana depois, na véspera de Ano Novo em 2018, a curta vida de Levi chegou ao fim.

O meu filho era assim, carinhoso, gentil, adorável. Pensava sempre nos outros. Só queria dar abraços e beijinhos, e fazia sempre questão de dar um elogio a quem se cruzasse com ele”, conta Kathryn que, para além de Levi, é mãe de mais duas crianças: Olivia, de 10 anos, e Archie, de 6.

Em 2017, não havia sinais de que algo de errado se passava com Levi. Até que um dia, “ele chegou a casa e disse-nos que o seu professor queria falar comigo e com o meu marido a propósito da sua visão”.

Depois de terem conversado com o docente, a família Wheeler levou o pequeno Levi a um oftalmologista que, “apenas por precaução”, pediu que a criança fizesse uma ressonância magnética.

Passados alguns dias, Kathryn recebeu uma chamada que mudaria o rumo da sua vida: Levi tinha sido diagnosticado com um glioma pontino intrínseco difuso (DIPG), um dos cancros infantis mais raros e com uma das maiores taxas de mortalidade.

Levi fui diagnosticado com DIPG. – Fonte: DR

Atualmente, não existem tratamentos eficazes para a doença e, tendo em conta que os tumores se desenvolvem no tronco cerebral, operar não é uma opção.

Segundo os médicos, Levi tinha cerca de 1 ano de vida. No final, o menino viveu 1 ano e 10 dias.

“O nosso último ano foi ‘dolorosamente bonito’. É assim que nos referimos ao período entre o final de 2017 e o final de 2018. Foi extremamente difícil lidar com tudo à nossa volta, sabendo que o nosso filho iria morrer. Viver com isso foi doloroso, foi cansativo, foi um tormento”.

“Tentámos ao máximo proteger o Levi e os nossos outros dois filhos. Não queríamos que eles soubessem o que se passava. Apenas queríamos ter o nosso filho e amá-lo”, recorda, emocionada, Kathryn.

Tivemos a sorte de podermos ter passado momentos maravilhosos com o Levi no seu último ano de vida. Por isso é que dizemos que foi um ano ‘dolorosamente bonito’. Ele conseguiu fazer muitas coisas nesse ano; conseguimos viajar com ele, mostrar-lhe sítios incríveis… o meu filho foi uma força da natureza”.

“O Levi ensinou-nos a viver. Infelizmente, só conseguimos perceber o quão preciosa é a vida, e o quão importante é vivê-la, quando sabemos que o tempo que temos com os nossos filhos é muito limitado.”

A família Wheeler. – Fonte: Levis´s Project

O vídeo que Kathryn gravou com Levi, onde ele dizia que amava a sua família, continua a ser visto quase todos os dias por ela.

“Não é fácil, mas continuamos a ver aquela gravação. Ouvir o meu filho dizer que nos amava, traz-me paz. É um sentimento agridoce. Todos nós sabemos a sorte que tivemos em poder fazer parte da vida daquela criança, em poder dizer que ele é nosso filho”.

Os últimos 7 meses da vida de Levi foram uma verdadeira “montanha-russa emocional”, com muitas dias bons e outros maus. Mas Kathryn e Ben, o pai de Levi, concentram-se agora no futuro e num novo projeto.

Durante os tratamentos de Levi, a família foi ajudada por muitos familiares, amigos e pela comunidade em geral, que fizeram imensas doações na tentativa de ajudar a criança.

Familiares e amigos querem perpetuar a memória de Levi. – Fonte: DR

No total, foram angariados mais de 2,4 milhões de dólares (cerca de 2,1 milhões de euros), que foram doados ao Children’s Cancer Institute australiano e que deram inicio a um programa dedicado à investigação sobre o glioma pontino intrínseco difuso.

O Levi’s Project, como é conhecido, terá uma duração de 3 anos, pelo menos, e dará início a ao seu primeiro ensaio clínico até o final do primeiro ano.

“Haverá um total de três ensaios clínicos em 3 anos. Estamos muito empolgados com isto, porque é graças aos ensaios clínicos que podemos testar a eficácia de novos medicamentos, de novas terapêuticas. Sentimo-nos uns privilegiados por esta doação. É muito dinheiro. E, mais importante do que isso, é um valor que nos vai ajudar a dar a outras crianças uma hipótese de terem uma infância feliz”, disse Michelle Haber, diretora executiva da instituição.

O objetivo agora é arrecadar mais dinheiro para estender o Levi’s Project além do período de 3 anos.

“Devido aos enormes avanços na pesquisa médica, a taxa de sobrevivência do cancro infantil aumentou significativamente. Mas ainda há muitos tipos de cancro infantis que têm taxas de sobrevivência devastadoramente baixas”.

“Acredito que projeto será um divisor de águas. Graças ao Levi, e aos seus pais, vamos poder apoiar pesquisas que mudam vidas. Já conseguimos cultivar amostras de tumores de glioma pontino intrínseco difuso nos nossos laboratórios e, após testar milhares de medicamentos, identificámos cinco candidatos promissores ao tratamento. Acreditamos que uma combinação desses medicamentos será muito mais eficaz no tratamento desta doença. O Levi’s Project vai-nos permitir desenvolver essa pesquisa”.

Kathryn e Ben querem ajudar outras crianças com cancro. – Fonte: DR

Seremos eternamente gratos à família, aos amigos e à comunidade que conhecia o Levi por escolherem homenagear o Levi, juntando-se à nossa luta para acabar com o glioma pontino intrínseco difuso e todos os cancros infantis”, disse Michelle.

Fonte: The Mercury

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