Uma vida dedicada à luta contra o cancro infantil

Michelle Haber faz parte do Children’s Cancer Institute australiano desde o princípio, quando a organização era composta por apenas 3 pessoas e Michelle era uma cientista em início de carreira.

Hoje, cerca de 35 anos depois, este instituto emprega mais de 300 pessoas e Michelle é a diretora executiva que lidera uma grande equipa de investigadores dedicada a descobrir novas formas de combater e, quiçá, erradicar o cancro infantil.

“Um pouco por todo o mundo, a causa mais comum de mortalidade infantil é o cancro pediátrico. É fundamental que existam apoios para organizações que, tal como a nossa, trabalham para encontrar melhores tratamentos para esta doença”, explica Michelle.

“Só na Austrália, morrem 3 crianças por cancro infantil, todas as semanas. Por ano, são diagnosticadas mais de mil crianças e adolescentes”.

O Children’s Cancer Institute é o único instituto australiano totalmente dedicado a pesquisa para o cancro infantil. – Fonte: CCI

Apesar de achar que muito mais deve ser feito, Michelle reconhece que têm havido “enormes melhorias nos últimos 60 anos. Passámos praticamente de uma taxa de mortalidade de 100% para uma taxa de sobrevivência de 80%. Isso é incrível”.

Quando Michelle começou a trabalhar no Children’s Cancer Institute, na década de 1980, tinham passado apenas 20 anos desde que havia sido reconhecido que o cancro podia ser tratado com fármacos quimioterápicos.

“O conceito de que o cancro era uma doença tratável não existia até à década de 1960; só esse avanço torna a história do cancro, para mim, a história de maior sucesso da medicina moderna. Mas ainda não é, nem pode ser considerado um caso resolvido. Porque ainda há muito a fazer”, disse, voltando a referir que “na Austrália, morrem 3 crianças por semana com doença oncológica”.

E repete, porque “a morte de 3 crianças por semana pode parecer pouco para alguns”, tendo em conta que o país tem uma população de 25 milhões de pessoas, mas “quando se trabalha com famílias e com pais que perderam os seus filhos, percebe-se rapidamente que o número 3 é um número demasiado alto”.

“Acredito, e esse é o objetivo principal do Children’s Cancer Institute, que chegaremos a uma taxa de sobrevivência de 100%. É por esse valor que trabalhamos todos os dias”.

Michelle acrescenta que, embora as taxas de sobrevivência tenham melhorado, alguns dos tratamentos que as crianças recebem continuam a ter “efeitos brutais” nos seus corpos, que ainda se encontram em crescimento.

O avanço em direção à cura

O Children’s Cancer Institute é o único instituto de pesquisa independente na Austrália que é totalmente dedicado ao cancro infantil, tendo sido fundado por pais e médicos de crianças que lutavam contra o cancro.

“O nosso objetivo é simplesmente salvar a vida de todas as crianças com cancro. É esse o nosso propósito”, disse a diretora executiva da instituição.

O Children’s Cancer Institute foi criado há mais de 35 anos. – Fonte: CCI

A razão para a necessidade da existência de mais pesquisas específicas sobre o cancro infantil é que os cancros que afetam as crianças são muito diferentes dos cancros que afetam os adultos.

Enquanto os adultos são mais afetados por cancros como os da mama, da próstata, do pulmão e da pele, por exemplo, os cancros mais frequentes em crianças são cancros sanguíneos, como a leucemia, ou cancros cerebrais e do sistema nervoso central.

“Como são tipos de cancros diferentes, exigem tratamentos diferentes e um foco especializado”.

Para além disso, Michelle explica que, como o ADN de cada pessoa é único, as células cancerígenas também não são as mesmas em todos os corpos.

“Da mesma forma que não existem duas crianças iguais, também não existem dois cancros iguais”.

Para a investigadora, a bioinformática genética, a biologia computacional e a medicina de precisão são ferramentas preciosas no processo de busca por tratamentos que atinjam células específicas em crianças individuais.

Uma das equipas do Children’s Cancer Institute. – Fonte: CCI

“Estamos numa altura crucial, onde cada um de nós pode fazer a diferença. Por exemplo, nos últimos 15 anos, e com a ajuda do sequenciamento do genoma humano, conseguimos ter a capacidade de entender com maior precisão a composição genética do cancro de cada criança e, assim, descobrir as mudanças genéticas que fazem com que o cancro, naquela criança em específico, seja tão agressivo”.

Num futuro próximo, “entre 5 a 10 anos”, Michelle acredita que o sequenciamento genético, que ajuda a escolher “o fármaco certo para o paciente certo”, será a maneira utilizada para tratar todas as crianças diagnosticadas com cancro. O sequenciamento genético combinado com as imunoterapias, que usam o próprio sistema imunitário do paciente para atacar o tumor, “proporcionarão tratamentos muito mais eficazes”.

A eterna questão da necessidade de financiamento

“Cabe-nos a nós, investigadores, garantir que as nossas descobertas sejam implementadas em novos tratamentos para crianças com cancro, o mais rápido possível. Mas fazer isso só é possível se existir apoio por parte da comunidade.

“São as doações e o apoio filantrópico que nos permitem continuar a trabalhar, a apoiar as equipas de cientistas que conduzem estas pesquisas para descobrirem novos tratamentos. É através do financiamento que conseguimos investir nas mais recentes tecnologias e nas áreas mais promissoras para oferecer os tratamentos do futuro”.

“O apoio das grandes empresas é fundamental. É necessário que existam parcerias entre as instituições e os líderes da comunidade de negócios. No Children’s Cancer Institute trabalhamos arduamente para que essas parcerias prosperem”.

Também por isso, o instituto criou o CEO Dare to Cure, uma iniciativa dirigida a CEOs e líderes empresariais, onde estes são convidados a ultrapassar desafios que podem variar entre fazer uma tatuagem, deitar-se com cobras ou entrar numa banheira gelada. Tudo em prol da luta contra o cancro infantil.

O CEO Dare to Cure desafia empresários a testarem os seus limites. – Fonte: CCI

“No primeiro ano da CEO Dare to Cure, a sensação que eu senti quando, de repente, vi aquele improvável grupo de pessoas a cumprir tarefas ainda mais improváveis, foi inexplicável. Ver aqueles empresários a lidarem com as crianças, a conhecerem a sua jornada… Acho que, desta forma, conseguiram perceber o impacto que podem ter na vida, e no futuro, daquelas crianças e das suas famílias”.

“Nunca pensei fazer uma tatuagem, mas fiz uma na CEO Dare to Cure. Representa aquilo que é mais importante para mim: os meus 3 filhos e o instituto. Foram estas duas coisas que moldaram minha vida. Há 35 anos que trabalho no Children’s Cancer Institute, foi o meu primeiro e único emprego. Vi esta organização crescer de 3 para 300 pessoas. Vi este instituto tornar-se numa referência internacional na área da oncologia pediátrica. E por isso, sinto-me feliz por ter marcado no meu corpo as duas coisas de que mais me orgulho”, explica Michelle.

Uma carreira dedicada à luta contra o cancro infantil

“Ter visão, trabalhar arduamente e ter um compromisso inabalável com esta causa. Foi isso que me fez chegar onde estou. Comecei como cientista e hoje sou a diretora do Children’s Cancer Institute. Acreditar que podia fazer a diferença ajudou-me muito, porque agarrei as oportunidades ‘com unhas e dentes’”.

Michelle acreditar ser possível encontrar uma cura para o cancro infantil. – Fonte: CCI

“Mas atenção, não bastou ser uma ‘boa cientista’. As equipas com quem trabalhei tiveram uma responsabilidade enorme e ajudaram a tornar-me na profissional que sou”.

“Sempre acreditei que sozinhos não chegamos tão longe. Precisamos de trabalhar com outras pessoas, com outros médicos, com outros institutos de pesquisa, com outros hospitais, com outros parceiros internacionais. A colaboração é a chave para o progresso”, defende a diretora do instituto.

“No Children’s Cancer Institute sentimos uma obrigação em marcar a diferença. Queremos mudar o rumo desta história. Queremos taxas de sobrevivência de 100%. Esse é o único caminho que podemos escolher se queremos ajudar as crianças com cancro neste país e em todos os países do mundo”.

Fonte: The CEO Magazine

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