ZERO, o programa que quer melhorar os tratamentos para o cancro infantil

Os resultados de um programa australiano que visa construir recomendações de tratamento personalizado com maior probabilidade de sucesso para crianças com cancro de alto risco foram revelados num artigo publicado na revista Nature Medicine.

O programa usa tecnologia genética de ponta para testar o tumor de cada criança com um conjunto abrangente de testes genéticos para encontrar uma terapia que possa potencialmente tratar a doença oncológica.

Estes testes são concluídos dentro de um prazo clinicamente relevante de menos de 9 semanas, em média, com mais de 70% dos casos a receberem uma recomendação de um programa de tratamento personalizado. Nestes casos, pelo menos uma, e às vezes várias, alterações genéticas são identificadas, o que leva à criação de potenciais recomendações de tratamento.

A descrição do Zero Childhood Cancer Custom Medicine Program (ZERO), liderado pelo Children’s Cancer Institute e pelo Kids Cancer Center, ambos na Austrália, oferece um novo paradigma para o tratamento do cancro pediátrico e, esperam os cientistas, pode vir a ter implicações globais.

Todos os anos, só na Austrália, cerca de 1000 crianças e jovens são diagnosticados com cancro; a cada semana, 3 crianças morrem.

O desafio de curar todas as crianças com doença oncológica é que todas as crianças e todos os tipos de cancro são únicos – e é por isso que as opções de tratamento padrão atualmente utilizadas em sempre funcionam.

Considerado um dos programas de medicina personalizada mais abrangentes do mundo, o ZERO visa identificar a composição precisa do cancro de cada criança usando testes genómicos sofisticados (como sequenciação do genoma completo ou do transcriptoma completo) de forma a identificar mudanças moleculares que impulsionam o cancro, e combinando-as com os tratamentos mais propensos a atingir a doença.

O objetivo é identificar um plano de tratamento personalizado para cada criança.

Os autores deste programa, Paul Ekert, Mark Cowley e David Ziegler, com o apoio de uma vasta equipa de cientistas e clínicos, estudaram os dados genómicos gerados a partir das primeiras 250 crianças inscritas no programa e mostraram que o ZERO identificou a base molecular, ou genética, do cancro infantil em mais de 90% dos casos; nestes, 70% tinham, pelo menos, uma nova e potencial opção de tratamento identificada com base na composição genética do cancro.

No momento da publicação do artigo, 32% das crianças para as quais foi feita uma recomendação terapêutica, haviam recebido a terapia recomendada.

Os primeiros resultados mostraram que, em 30% dos casos, o tumor encolheu e, em alguns pacientes, regrediu completamente. Em 40% dos casos, o tumor parou de crescer e estabilizou.

De acordo com os líderes deste programa “os são resultados iniciais muito otimistas para crianças com cancro de alto risco”.

“Nós mostrámos que o ZERO tem potencial para encontrar novas estratégias de tratamento personalizadas para as crianças diagnosticadas com os tipos de cancro mais agressivos que, em muitos casos, não têm outras opções de tratamento disponíveis. Os pacientes que receberam a terapia recomendada molecularmente informada tiveram uma taxa muito maior de benefício do que esperaríamos de abordagens não direcionadas.”

Para Mark Cowley, o sucesso do programa ZERO representa uma mudança de paradigma na forma como o cancro infantil de alto risco pode ser tratado.

“Nós desenvolvemos uma abordagem altamente eficaz para traçar o perfil molecular do cancro de uma criança e extrair as informações clinicamente relevantes desses dados complexos num prazo clinicamente relevante”, disse ele.

Segundo o investigador, “esta abordagem informa o diagnóstico do paciente, identifica novas potenciais opções de tratamento e identifica famílias que podem estar em maior risco de desenvolver cancros infantis adicionais”.

Para este grupo de cientistas, o facto de que, em mais de 90% dos casos, a causa genética do cancro ter sido identificada é “muito importante”, pois fornece uma maneira de identificar sistematicamente a base molecular da maioria dos cancros infantis.

O programa ZERO ajudou crianças como o Thomas, que foi diagnosticado aos 2 anos e meio de idade com uma forma rara de cancro do cérebro; o estado de saúde de Thomas piorou bastante e, depois de ser sujeito a várias cirurgias e de ter perdido grande parte da visão, as opções de tratamento rapidamente se esgotaram.

Assim que Thomas foi inscrito no ZERO, os cientistas encontraram uma mutação rara que impulsionava o crescimento do cancro; com essa informação, a equipa descobriu um novo fármaco experimental designado para atingir essa mutação.

Hoje, Thomas tem 8 anos e, mesmo a receber tratamentos, o seu futuro parece brilhante.

No entanto, estes resultados não se traduzem para todas as crianças que pertencem ao programa ZERO.

Stella, de 3 anos, sofria de um cancro cerebral extremamente agressivo que lhe retirou a capacidade de falar, andar ou comer sem ajuda. A menina estava internada nos cuidados paliativos quando foi inscrita no programa ZERO, em 2017.

Os cientistas conseguiram encontrar um driver genético no seu tumor cerebral que, quando a menina recebeu a terapia direcionada recomendada, desapareceu por completo.

Graças a isso, a jovem pôde viver algum tempo como como uma criança saudável.

No entanto, infelizmente, após 10 meses de tratamento, o seu tumor voltou a crescer e Stella faleceu a 1 de agosto de 2018.

Embora o ZERO não tenha conseguido salvar Stella, o programa conseguiu prolongar a sua vida, dando-lhe 10 meses de tempo de vida feliz e relativamente saudável com a sua família, que, de outra forma, não teria sido possível.

“O ZERO está a mudar o modelo de atendimento para crianças com cancro, identificando novos tratamentos especificamente direcionados para o cancro individual de cada criança e facilitando o acesso ao medicamento certo, para a criança certa, no momento certo”.

Fonte: Medical Xpress

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