Zero Childhood Cancer: um plano para salvar crianças com cancro

Vivian Rosati lembra-se vagamente de os médicos lhe dizerem que uma pequena amostra do tumor cerebral do seu filho seria enviada para análise, pois um grupo de cientistas estava a trabalhar num projeto sobre cancro infantil.

Na época, aquela mãe australiana só conseguia pensar no seu filho Jack, de 10 anos, que estava internado, prostrado numa cama de hospital, com um tumor cerebral que havia metastisado até à base da espinha.

“Eu pensei ‘ok, isto é muito bom para a investigação, mas e o meu filho? O Jack precisa de tratamento agora, não daqui a uns anos’”, confessa Vivian que, voltando atrás, acredita que foi aquele dia que salvou a vida ao rapaz.

O tecido tumoral de Jack passou a fazer parte do estudo PRISM, um projeto da Zero Childhood Cancer, uma iniciativa que recorre à medicina de precisão e onde os investigadores analisam a composição genética das células cancerígenas na procura por tratamentos direcionados a cada criança.

“Quando as crianças entram neste programa é porque já se encontram, literalmente, no fim da linha”, disse a diretora do Children’s Cancer Institute australiano e parte integrante do projeto, Michelle Haber.

“Estes são os piores casos possíveis. O que este programa veio fazer foi dar esperança, onde antes só existia consternação.”

A Zero Childhood Cancer tem recebido o apoio de muitas organizações; recentemente, a Fundação Minderoo anunciou que irá doar 5 milhões de dólares (cerca de 4,4 milhões de euros) ao programa. A doação permitirá que o programa aumente a sua capacidade e duplique o número de crianças inscritas no ensaio clínico; assim, os investigadores esperam ser capazes de fornecer medicamentos personalizados a mais crianças diagnosticadas com cancro, de alto risco ou recidivado, até 2020.

O “plano” da Zero Childhood Cancer. – Fonte: DR

Na Austrália, 1 em cada 5 crianças diagnosticadas cancro morre, o que equivalente a 3 crianças por semana. Todos os anos, cerca de 200 crianças e adolescentes australianos são diagnosticados com cancros extremamente agressivos e difíceis de tratar, com taxas de sobrevivência menores do que 30%.

Nenhuma criança, cancro ou tumor é o mesmo. As assinaturas genómicas e biológicas são únicas e diferentes, tal como os impulsionadores, ou drivers, do crescimento de células cancerígenas malignas quando o tratamento de primeira linha falha.

“Encontrar esses marcadores genéticos específicos e direcioná-los com o medicamento certo, para a criança certa, no momento certo, será a chave para alcançar uma taxa de sobrevivência de 100% para o cancro infantil”, exclama Michelle Haber.

Jack foi diagnosticado com ganglioglioma em fevereiro de 2017; desde aí, o jovem já foi sujeito a uma cirurgia para remover uma massa do tamanho de uma caixa de fósforos do lobo temporal direito.

O ganglioglioma raramente recidiva, mas isso foi que aconteceu com Jack, em 2018. O estado do menino deteriorou-se rapidamente, tendo sido necessárias várias cirurgias, quimioterapia, transfusões de sangue e punções lombares semanais para drenar a acumulação de fluido ao redor do cérebro. Jack deixou de responder ao tratamento, começou a perder a visão, não conseguia andar e estava com dores excruciantes.

“Ver o meu filho naquele estado foi…muito duro, muito duro mesmo”, disse Vivian.

“É preciso que as pessoas saibam o quão importantes são programas como a Zero Childhood Cancer. São iniciativas destas que salvam pessoas”.

O estudo PRISM descobriu que o cancro de Jack tinha uma mutação genética conhecida como BRAF V600E, que poderia ser alvo de uma combinação de dois medicamentos mais comummente usados ​​para tratar melanoma em pacientes idosos. O rapaz começou a tomar os medicamentos a cada 12 horas.

“Foi um milagre”, conta, emocionada, Vivian. “Ao fim de 45 dias, vi o meu filho a jogar ténis, quase como se nada tivesse acontecido.”

“Obrigada a todas as pessoas que estão envolvidas neste projeto e obrigada a todos aqueles que doam. Muito, muito obrigado”.

Até agora, foram matriculadas no estudo PRISM cerca de 200 crianças; em mais de 70% dos casos, os investigadores foram capazes de recomendar tratamentos personalizados.

Fonte: WA Today

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