Um desabafo sobre aquilo que o cancro infantil me trouxe

Estarmos sozinhos com os nossos próprios pensamentos pode ser uma coisa boa.

Deixarmos os pensamentos fluírem através da nossa mente pode trazer à tona algumas coisas que estavam escondidas nos cantos mais profundos da nossa consciência. Às vezes, esses pensamentos podem assustar-nos. Outras vezes, são esses mesmos pensamentos assustadores que nos podem ajudar a enfrentar alguns desafios.

Antes de continuar, quero deixar algo claro: sou extremamente grata por tudo o passei na vida. Grata pelas oportunidades que tive. Grata por todo o apoio que recebi de todos aqueles que me rodeiam.

Mas, nos últimos anos, sinto que perdi a minha identidade. Por vezes, sinto que já não sei quem sou, quais eram os meus planos. Perguntam-me onde quero estar daqui a 5 anos e eu não sei.

Os que estão mais próximos de mim sabem qual era o meu emprego de sonho. Mas esse sonho não pode ser concretizado. Pelo menos não de forma plena.

Aos 4 meses de idade, fui diagnosticada com neuroblastoma; aos 7 anos, fiquei presa a uma cadeira de rodas. Não havia outra solução, eu sentia-me constantemente cansada, fraca, sem forças.

Se a minha vida tivesse sido diferente, eu gostaria de ter sido paramédica. De estar no terreno. Mas a minha vida é esta, e há coisas que os paramédicos não podem fazer se estiverem numa cadeira de rodas.

Tentei esquecer esse sonho e, entretanto, já conquistei muitas coisas que não achava serem possíveis. Ganhei prémios desportivos e fui aluna do quadro de honra na escola.

Mas a pergunta que me faço é: se sou grata pela vida que tenho agora, por que razão me sinto tão ansiosa? Por que sinto que existem versões diferentes de mim quando só posso ser uma? Por que me sinto assim depois de estar numa cadeira de rodas por quase 20 anos? Será que ainda tenho o direito de me sentir assim, especialmente depois de ter passado tanto tempo?

Os meus pais sempre me ensinaram que nós somos capazes de atingir tudo aquilo que queremos. Ensinaram-me que, com força, determinação e força de vontade, podemos concretizar os nossos sonhos. E eu acredito nisso.

Eles continuaram, e ainda hoje o fazem, a lembrar-me disso durante os inúmeros internamentos hospitalares, durante os episódios de bullying que sofri, durante todos os eventos traumáticos que ocorreram ao longo da minha vida.

Ensinaram-me sempre a ser positiva, independentemente do que acontecesse. E eu tento ser assim, mas, como todos sabemos, nem sempre é fácil.

Continuo a procurar ferramentas que me ajudem a lidar com estes problemas. Tenho a noção de que a minha saúde mental não é a melhor. Estou a ser medicada para a ansiedade e depressão e recentemente fui diagnostica com transtorno de stress pós-traumático. Há muito que não sei o que é uma boa noite de sono, sem pesadelos. Curiosamente, nesses pesadelos, nunca estou numa cadeira de rodas.

Uma vez, um psicólogo disse-me que, embora eu não me lembre do tratamento a que fui sujeita (era muito nova), o meu subconsciente e o meu corpo lembram-se.

Por vezes, sinto-me culpada por ter sobrevivido. Porquê? Não sei…

Mas sinto-me culpada por ter sobrevivido a um neuroblastoma e os meus amigos não. Sinto-me culpada por ter tido a oportunidade de continuar a viver e eles não. Porquê? Porque é que eu fui merecedora disso e eles não? Se calhar eles iam aproveitar melhor a vida do que eu…

“Deves estar grata por estares viva”.

“Não te devias sentir assim, o pior já passou”.

“Tu sobreviveste. Sê grata por isso”.

Claro que estou grata.

Sinto-me muito grata sim, mas não consigo controlar os meus sentimentos. E aprendi que não devia sentir-me mal por isso.

Nós não precisamos de ser fortes sempre. Isso é cansativo.

Não precisamos de nos sentir bem todas as horas.

As coisas não precisam de fazer sentido o tempo todo.

Com o tempo, fui aprendendo algumas coisas. Aprendi que, às vezes, as coisas do quotidiano podem desencadear algumas memórias que preferíamos esquecer. Por exemplo, todos os dias, quando me olho ao espelho, lembro-me de um incidente na escola em que fui intimidada pela cor dos meus dentes. Eles não são brancos como os das outras pessoas devido à quimioterapia a que fui sujeita. Nunca consegui ultrapassar esse (pequeno?) pormenor.

Também aprendi que os planos mudam. Que nem sempre dão certo. Mas às vezes acontece algo novo, inesperado, que é ainda melhor do que os planos que tínhamos. Só temos de esperar.

Aprendi que as pessoas mudam.

Aprendi que não podemos controlar o que as pessoas pensam e sentem. Mas podemos controlar a forma como reagimos aos outros. E a gentileza é a melhor arma.

Também aprendi que a dor emocional e a dor física vão permanecer para sempre. Não há volta a dar. A única maneira de lidarmos com isso é tentar-nos encontrar o nosso caminho.

Aprendi ainda que admitirmos a nós próprios e aos outros que não estamos bem não é um sinal de fraqueza. É verdade que nem todas as pessoas vão perceber os nossos medos, as nossas angústias e frustrações. E não há nada de errado nisso, não podemos esperar que todos entendam aquilo pelo que estamos a passar. Cada um de nós tem a sua própria luta.

Algumas das coisas que penso, sinto e faço são comuns em sobreviventes de cancro infantil que lutam com a sua saúde mental. De certa forma, isso é reconfortante, porque mostra que a luta é real, é válida e que eu não estou sozinha.

Existem alguns grupos maravilhosos nas redes sociais e, atualmente, estão a ser realizadas cada vez mais pesquisas sobre a saúde mental de sobreviventes de cancro infantil.

Às vezes, as cicatrizes físicas ou emocionais nem sempre são óbvias. Mas, quando nos damos conta delas, não devemos ter problema em “tirar a máscara” e mostrar aquilo que realmente sentimos.

Estar numa cadeira de rodas não me impede de fazer nada. Quanto muito dá-me força para fazer aquilo que muitos dizem não ser capaz.

Desligar o telemóvel de vez em quando é uma maneira realmente eficaz de me focar no meu próprio bem-estar. Todos os dias, dedico parte do meu dia ao meu “tempo de preocupação”; durante esse período, concentro-me em fazer aquilo que, por algum motivo, me deixa preocupada. Essas coisas podem ser um email de trabalho, pagar faturas ou fazer uma chamada importante. Depois de terminado esse período, volto à minha vida normal.

Encontrar algo que gostemos de fazer é fundamental. No meu caso, é o desporto adaptado, embora no ano passado, tive que desistir devido a problemas de saúde e a várias outras circunstâncias.

Ter uma estrutura de apoio também é muito importante. Obrigado mãe e pai. Senão fossem eles, não sei como teria conseguido lidar com este confinamento a que todo o mundo foi obrigado a aderir.

Durante esta pandemia tentei exercitar-me mais, ler mais, desenhar mais… também comecei a escrever, curiosamente comédia. Senti-me motivada a escrever, de uma forma engraçada, sobre os desafios que sou obrigada a enfrentar.

Há sempre um lado bom em tudo o que é mau. A verdade é essa.

E outra coisa, ninguém está sozinho neste mundo.

Também por isso senti a necessidade de escrever esta carta. Pode haver alguém, numa qualquer parte do planeta, que se esteja a sentir como eu. E, por isso, digo: tu não estás sozinho! Eu estou aqui e percebo aquilo pelo qual estás a passar!

Texto redigido por Rachel Ann, sobrevivente de cancro infantil

Fonte: Yahoo

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