Sobreviventes: tratamento aumenta risco de neoplasias futuras

De acordo com novas investigações, o tratamento oncológico pode aumentar o risco de sobreviventes de cancro infantil desenvolverem neoplasias malignas mais tarde na vida.

Apesar de esta ser uma informação já conhecida, os novos estudos destacam o quão significativo é o problema, num alerta para a necessidade de uma maior vigilância e acompanhamento para esta população.

Um dos mais recentes trabalhos acerca desta problemática foi publicado na revista JAMA Pediatrics, com os investigadores a concluírem que meninas sobreviventes de cancro infantil estão em maior risco de desenvolver cancro da mama, e outras neoplasias malignas, mais tarde na vida.

Considerado o “maior estudo a analisar a relação entre o cancro da mama e o tratamento do cancro infantil” pela equipa de pesquisa, o estudo também mostrou que a “combinação de antraciclinas [quimioterapia] e radioterapia pode aumentar significativamente os riscos de cancro da mama e é maior que a soma dos seus efeitos individuais, consistente com uma interação aditiva”.

A investigação examinou os dados de 14 358 sobreviventes de cancro infantil, em remissão há, pelo menos, 5 anos, que haviam sido diagnosticados entre 1970 e 1986. Estas crianças estavam matriculadas no North American Childhood Cancer Survivor Study.

Durante o acompanhamento, 271 sobreviventes femininas com, em média, 39 anos, desenvolveram cancro da mama.

O estudo mostrou que crianças que receberam uma dose de radiação de 10 Gy, ou mais, mas que não haviam sido sujeitas a quimioterapia, tinham uma probabilidade quase 10 vezes maior de serem diagnosticadas com cancro da mama, enquanto adultas, em comparação com crianças que não tinham sido sujeitas a radioterapia. As crianças que também foram tratadas com terapia com antraciclina tinham uma probabilidade 20 vezes maior de desenvolver cancro em adultas.

Uma outra investigação, publicada no Journal of Clinical Oncology, ao analisar a mesma amostra de pacientes do North American Childhood Cancer Survivor Study, descobriu que a taxa de neoplasias malignas subsequentes entre sobreviventes de cancro infantil tratados apenas com quimioterapia era quase três vezes maior do que taxa encontrada na população em geral.

Este estudo constatou que o tratamento com quimioterapia estava associado a um risco aumentado de os sobreviventes desenvolverem cancros secundários, como leucemia, linfoma, sarcoma de tecidos moles, cancro da tiroide e melanoma.

Ainda assim, “o risco e a incidência cumulativa de sobreviventes tratados apenas com quimioterapia eram aproximadamente metade do observado em sobreviventes expostos a radioterapia e quimioterapia”, disseram os investigadores.

O estudo concluiu que a taxa de incidência acumulada em 30 anos para uma neoplasia maligna futura era de 3,9% para pacientes tratados apenas com quimioterapia, 9% para pacientes que receberam quimioterapia em combinação com radioterapia e 10,8% para os sobreviventes que foram tratados apenas com radioterapia; em comparação, a probabilidade para a população de sobreviventes que não recebeu nenhum deste tipo de tratamentos foi de 3,4%.

Ambos os estudos, com base nos seus respetivos resultados, alertam para a necessidade de uma maior vigilância à saúde de sobreviventes de cancro infantil.

Leanne Super, oncologista pediátrica, diz ao newsGP que os potenciais efeitos a longo prazo do tratamento de cancro infantil no desenvolvimento futuro de doenças malignas são bem conhecidos, e que o tratamento atual desses cancros já estão a ser modificados para reduzir esses riscos.

Segundo a médica, o problema destes estudos é que eles estão a analisar dados de pacientes que foram tratados há cerca de 40 ou 50 anos atrás.

Os tratamentos mudaram desde então. Hoje em dia usamos menos radiação e fazemos uma maior monitorização do medicamento específico que estamos a administrar”, afirma a oncologista que, mesmo assim, reafirma a importância da vigilância e do acompanhamento dados a sobreviventes de cancro infantil.

Leanne dá o exemplo do que está a acontecer na Austrália onde, quando um paciente de cancro infantil recebe alta, é-lhe entregue um documento que lista, detalhadamente, quais os tratamentos que recebeu e quais os possíveis efeitos secundários, para que o sobrevivente possa ser acompanhado da melhor forma pelo seu médico de família.

Infelizmente, nem todos os sobreviventes de cancro infantil recebem este tipo de cuidados e serviços.

Fonte: NewsGP

Comments are closed.
Newsletter