Radioterapia pode promover problemas cardiovasculares em sobreviventes de cancro infantil

A radioterapia pode explicar o porquê de sobreviventes de cancro infantil serem tão propensos a desenvolver doenças metabólicas e cardiovasculares, de acordo com uma nova investigação.

Um espectro de condições que inclui doenças cardiovasculares e diabetes, a doença cardiometabólica geralmente afeta pessoas que são obesas, idosas ou resistentes à insulina; mas, e por razões ainda desconhecidas, jovens adultos aparentemente saudáveis e ​​que sobreviveram a um cancro infantil também estão em risco.

Uma nova investigação descobriu que sobreviventes de cancro infantil submetidos a radioterapia abdominal ou corporal exibem, já em adultos, anomalias no seu tecido adiposo (gordura), semelhantes às encontradas em indivíduos obesos com doença cardiometabólica.

Os resultados sugerem que pode ser necessário encontrar estratégias que reduzam a dose de radiação fornecida à gordura.

“Quando os médicos planeiam a radioterapia, estão muito conscientes da toxicidade para os órgãos principais. Mas a gordura muitas vezes não é tida em consideração”, disse Paul Cohen, investigador da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos.

“Os resultados da nova investigação indicam que a exposição precoce das células de gordura à radiação pode causar uma disfunção de longo prazo no tecido adiposo, o que coloca os sobreviventes de cancro infantil em maior risco de desenvolver doença cardiometabólica”.

Hoje, mais do que nunca, crianças diagnosticadas com cancro têm muita probabilidade de sobreviver até à idade adulta; mais de 80% dos pacientes com cancro com menos de 18 anos estão vivos um ano após o diagnóstico inicial.

Ainda assim, a sua expectativa de vida “permanece teimosamente baixa, principalmente porque muitos sobreviventes desenvolvem doença cardiometabólica” – estudos sugerem que, entre aqueles tratados com radioterapia, o risco de morte por doença cardiovascular é sete vezes maior do que na população em geral.

“Ao contactar com estes pequenos pacientes, comecei a interessar-me imenso por um grupo distinto de sobreviventes do cancro infantil que desenvolveram doença cardiometabólica em idades mais jovens do que o esperado, mesmo com a ausência de fatores de risco típicos, como a obesidade”, explicou Paul Cohen.

O médico suspeitou que a gordura danificada desempenhava um papel neste processo; recentemente, uma investigação realizada por este cientista destacou a importância da gordura como um órgão endócrino que ajuda a regular o metabolismo.

“Antigamente, as pessoas viam a gordura como um saco passivo de células. Hoje em dia, sabemos que a gordura, com a sua constelação de células do sistema imunitário e projeções nervosas, é muito mais do que isso. É um órgão complexo e dinâmico.”

“E”, acrescenta, “como qualquer outro órgão, a gordura pode ser vulnerável aos danos da radiação”.

“Embora o tecido adiposo seja encontrado por todo o corpo e tenha muitas funções fisiológicas, não é considerado um ‘órgão de risco’ quando os oncologistas fazem os planos de tratamento com radioterapia. Nós acreditamos que receber altas doses de radioterapia perturbam a função normal do tecido adiposo”, explicou Xiaojing Huang, outro dos cientistas envolvidos na investigação.

Em conjunto, os dois investigadores, auxiliados por uma equipa de bioestatísticos e de enfermeiras da Universidade de Rockefeller, começaram a investigar uma potencial ligação entre a radioterapia em crianças e as misteriosas doenças metabólicas que as seguem até à idade adulta.

Para a investigação, os cientistas fizeram biópsias a um pequeno grupo de adultos que havia sobrevivido ao cancro infantil, após os pacientes terem sido tratados com radioterapia corporal ou abdominal.

Os voluntários tinham um baixo risco de doença metabólica, com um IMC e proporção cintura-quadril normais. No entanto, os dados indicaram que o seu tecido adiposo estava repleto de células imunitárias, conhecidas como macrófagos, e continham várias proteínas envolvidas na resposta do corpo a lesões crónicas.

Este tipo de perfil molecular era algo que os cientistas esperavam encontrar em pacientes idosos e obesos, mas não em jovens sobreviventes de cancro considerados saudáveis; ainda assim, os corpos destes sobreviventes já exibiam indicadores sutis da presença de doenças metabólicas, como o aumento dos níveis de açúcar no sangue.

“Selecionámos especificamente pessoas mais jovens com IMC normal e, ainda assim, a assinatura que encontramos corresponde à de pessoas muito mais velhas e obesas. Alguns estudos teorizaram que a radiação induz o envelhecimento prematuro, e isso é consistente com o que observámos”.

Apesar dos resultados, Paul Cohen adverte que pode ser precipitado tirar conclusões sobre a causalidade do estudo; contudo, o cientista espera que documentar a associação entre a exposição à radiação na infância e danos ao tecido adiposo possa abrir a porta a novas experiências.

Juntamente com a sua equipa, Paul Cohen e Xiaojing Huang estão a desenvolver um modelo animal para estudarem melhor as consequências celulares e moleculares da radiação, uma investigação que pode levar a uma melhor compreensão de quaisquer vias de doença subjacentes.

Os cientistas também levantam a possibilidade de que uma investigação maior possa descobrir marcadores moleculares consistentes para indicar quais os sobreviventes de cancro infantil que estão em maior risco de desenvolver doença cardiometabólica.

Enquanto isso não acontece, os cientistas esperam que os resultados da sua investigação possam ajudar a alertar os médicos sobre a importância da gordura e o quão necessário é protegê-la.

“Sabemos que nada vai mudar da noite para o dia. Mas estas descobertas iniciais podem chamar a atenção dos médicos para o fato de que o tecido adiposo pode ser afetado pela radiação e que esses efeitos podem causar problemas nos seus pacientes décadas depois”.

Fonte: Futurity

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