Quando a palavra “C” significa cura

Há 8 anos atrás, Kaitlyn Dorman estava tão doente que ficou paralisada e a sua visão turva. Dependente de uma cadeira de rodas, a menina estava confinada a viver no primeiro andar da casa da sua família.

Agora, com 17 anos, Kaitlyn pode andar e ver claramente.

A sua jornada começa quando, aos 9 anos, a menina foi até ao consultório do Dr. Eric Raabe com um tumor cerebral agressivo; hoje, a vida de Kaitlyn continua a ser regida pela “palavra c”, não de cancro mas de cura.

“Estamos a usar a palavra ‘c’, para cura, porque o cancro da Kaitlyn não vai voltar”, disse o Dr. Eric, oncologista pediátrico no Kimmel Cancer Center, da Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Numa questão de meses, o tratamento com um fármaco experimental diminuiu o debilitante tumor de Kaitlyn do tamanho de uma noz para o tamanho de um grão de arroz, restaurando a sua mobilidade e a sua visão. E 8 anos depois, o tumor não recidivou.

O tipo de tratamento que Kaitlyn recebeu é o que é conhecido como uma terapia direcionada – usar um fármaco que só funciona em certos pacientes, em tumores específicos, atacando moléculas específicas que permitem que o tumor cresça.

Este tratamento não funciona para todas as crianças com o mesmo tipo de cancro; e por isso, investigadores da John Hopkins estão a realizar uma nova avaliação ao medicamento para aprenderem com o resultado de Kaitlyn.

Os cientistas querem saber como tornar o tratamento mais eficaz para outros tumores cerebrais pediátricos, e afirmam que “este tratamento altamente personalizado é o futuro do tratamento do cancro”.

Embora muitas crianças sobrevivam ao cancro que Kaitlyn teve, apenas algumas conseguem aproveitar a qualidade de vida que alcançaram. Gliomas de baixo grau, a categoria de tumor cerebral que Kaitlyn desenvolveu, estão entre os tumores cerebrais mais comuns em crianças.

O seu tipo específico de tumor – um astrocitoma pilocítico – é uma massa de crescimento lento que se desenvolve nas células de suporte do cérebro. É responsável por cerca de 1 em cada 5 tumores cerebrais em crianças, de acordo com a American Cancer Society. Cerca de 95% das crianças que desenvolvem astrocitomas pilocíticos sobrevivem pelo menos 5 anos após o diagnóstico.

Mas os tumores podem contrair nervos óticos e pressionar outras partes do cérebro, fazendo com que alguns pacientes fiquem cegos, tenham problemas de equilíbrio ou desenvolvam outras deficiências que podem durar uma vida inteira.

“Neste momento ainda há muitos pacientes que perdem a visão, mesmo que o tumor não cresça mais. O que é interessante no caso da Kaitlyn, e no caso de alguns outros pacientes em que realmente vimos tumores a encolherem, é que essa perda de visão não é permanente… O olho está bem, os nervos estão bem e cérebro também está bem”, disse o Dr. Eric.

Os investigadores Johns Hopkins dizem que descobriram a chave para a metástase do cancro e, mais importante, como conseguir retardá-la.

Uma pessoa comum nunca iria descobrir que Kaitlyn alguma fez tivesse estado paralisada de ambas as pernas e de um braço. A menina, hoje adolescente, recuperou a visão e a mobilidade; pianista desde os 5 anos, Kaitlyn continuou a tocar mesmo quando o podia fazer só com uma mão. As aulas de piano tornaram-se uma forma de fisioterapia quando a jovem recuperou a destreza na sua mão esquerda.

Mas nem todos têm a mesma sorte…

Embora os tumores parem de crescer, eles muitas vezes não encolhem, deixando os pacientes permanentemente incapacitados. Muitos desses tumores são inoperáveis por causa da sua delicada posição no cérebro – geralmente perto do encontro de nervos óticos, no cerebelo ou, no caso de Kaitlyn, no tronco encefálico.

Depois de Kaitlyn ter sido diagnosticada, os médicos colocaram-na num regime de quimioterapia padrão, que normalmente priva o desenvolvimento do cancro; mas o seu tumor resistiu ao tratamento de primeira linha, continuando a crescer de forma mais agressiva.

Curiosamente, devido à alta taxa de sobrevivência, existe pouca pesquisa sobre glioma de baixo grau em crianças.

Felizmente, cada vez mais pesquisas estão a ser realizadas, já que famílias de pacientes com gliomas de baixo grau exigiram e financiaram tratamentos alternativos, disse Amy J. Weinstein, diretora de pesquisa de astrocitoma pediátrico de baixo grau e defensora da Fundação Pediátrica de Tumor Cerebral da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

O everolimo, o fármaco que Kaitlyn recebeu, foi uma das primeiras terapias direcionadas a serem testadas em crianças com tumores cerebrais de baixo grau, e esse ensaio lançou as bases para outros testes.

“Até à chegada do everolimo não havia ninguém a estudar a forma como impedir que esses tumores crescessem e deixassem de afetar as crianças”, disse Amy J. Weinstein.

Na época em que Kaitlyn estava doente, o Instituto John Hopkins era uma das 12 instituições que ofereciam um ensaio clínico usando o everolimo para tratar gliomas de baixo grau em crianças.

O fármaco oral foi desenvolvido pela empresa farmacêutica suíça Novartis sob a marca Afinitor. O everolimo já está aprovado para uso em adultos pelo regulador de saúde norte-americano (FDA) para prevenir a rejeição de transplantes de órgãos e para tratar alguns pacientes com cancro.

O primeiro estudo, no qual Kaitlyn foi tratada, confirmou a segurança do everolimo em pacientes pediátricos com glioma de baixo grau e descobriu que alguns pacientes responderam bem ao medicamento.

Agora, num ensaio subsequente, investigadores do Pacific Pediatric Neuro-Oncology Consortium estão a estudar o tecido cerebral de pacientes para estabelecer quais são os melhores candidatos para o fármaco com base na biologia dos seus tumores. O Instituto John Hopkins é uma das 18 instituições do consórcio.

Os cuidadores de Kaitlyn ofereceram a alternativa experimental depois de a quimioterapia padrão não ter tido sucesso.

“Tudo o que realmente queríamos saber era que a nossa filha ia ficar boa”, disse Mary Dorman, a mãe de Kaitlyn.

“Eu não estava apreensiva em relação ao ensaio clínico. Como mãe, acho que teríamos feito qualquer coisa para lhe dar uma oportunidade de sobreviver”.

Kaitlyn recorda que as visitas aos hospitais não pareciam um fardo, pareciam mais “uma consulta médica, onde eu ia fazer um check-up”, disse a jovem.

Mas o seu estado era sério e a jovem sentiu-se pior antes de começar a tomar everolimo. Os sintomas, que começaram com um leve tremor na mão, deterioraram-se para paralisia do braço e das pernas. A pressão do tumor fez com que a pupila direita se dilatasse, obscurecendo a sua visão. E ela desenvolveu uma infeção no estômago durante uma internação hospitalar.

“Eu não podia andar e não podia ver. Mas lembro-me de ouvir os médicos dizerem que havia algo novo que podíamos tentar, e eu pensei ‘Boa, vamos a isso’”, recorda a sobrevivente.

Após ter começado a fazer tratamentos com o everolimo, não demorou muito até que recuperasse a mobilidade.

“Foi como num piscar de olhos, tudo estava a funcionar de novo”.

Mary Dorman relembra a emoção que sentiu quando a sua filha, deitada numa cama, chamou a família para que vissem que ela já conseguia mexer o braço novamente – um truque que mais tarde mostrou ao Dr. Eric.

“Quase que nem precisávamos da ressonância magnética para saber que estava tudo a funcionar”, relembra o médico.

Kaitlyn parou de tomar o everolimo depois de experimentar danos no fígado causados pelo medicamento, um efeito secundário comum. Ainda assim, o seu tumor continuou a diminuir.

Como Kaitlyn teve uma resposta melhor que qualquer outro paciente no estudo, os investigadores estão a tentar replicar os seus resultados.

“Nós estamos a tentar descobrir como fazer aquele fármaco ser o fármaco certo, para o paciente certo, na hora certa”, disse Dr. Eric, que espera que o atual ensaio seja concluído no próximo ano.

Fonte: Medical Xpress

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