Pippa, a menina que superou uma leucemia e que agora quer ser médica

A minha filha Pippa foi diagnosticada com cancro em maio do ano passado.

Tudo começou quando ela se começou a queixar com dores nas virilhas e na zona pélvica; as dores eram tão fortes que, a determinada altura, ela não conseguia andar ou sentar-se sem sentir dor.

Numa primeira análise, os médicos pensaram que era osteomielite, uma infeção óssea que seria tratável com antibióticos. Aos poucos, a Pippa começou a melhorar, e no espaço de 6 semanas teve alta do hospital.

Mas alguns dias depois, recebemos um telefonema a dizer que os exames a que ela tinha sido sujeita acusavam altos níveis de células anormais. Naquela altura, lembro-me perfeitamente, eu senti que a minha filha tinha cancro.

Automaticamente, comecei a preocupar-me com o quão espalhado o cancro poderia estar. A cada segundo lembrava-me das dores que a minha filha sentia e só conseguir pensar que o cancro se tinha espalhado por todos os seus ossos.

Naquela que foi a noite mais longa da minha vida, ocorreram-me todas as perguntas possíveis.

Algumas delas só foram respondidas na manhã seguinte, quando tivemos a confirmação do diagnóstico: a um mês do sexto aniversário da Pippa, o médico disse-nos que ela tinha leucemia.

Saber que a minha filha tinha cancro foi um choque, mas ao mesmo tempo um alívio. Ver a minha filha a sofrer sem saber o que fazer para a ajudar era demasiado doloroso e agora, pelo menos, eu sabia o que ela tinha. Sabendo que ela tinha leucemia, eu teria algo a que me agarrar e algo a que direcionar a minha raiva.

O cancro que os médicos diagnosticaram, leucemia linfoblástica aguda, pode ser encontrado em diferentes formas, e felizmente os médicos disseram que Pippa tinha “o melhor que se podia esperar”, por ser mais facilmente tratável.

Uma frase estranha de ouvir mas que, para mim, fez algum sentido.

Disseram-me que, se as infeções que ela facilmente poderia contrair com os tratamentos não a matassem, não seria a leucemia que o faria. Também fui informada de que ela não iria necessitar de um transplante e de que tinha um risco mínimo de recaída.

Lembro-me de passar de “um choque devastador” para um “ok, tenho algo a que me agarrar, vai correr tudo bem”.

Como mãe, a coisa mais difícil foi ver a minha filha a sofrer e sentir-me impotente.

Até aqui, tudo tinha estado sobre controlo, até mesmo a sua conceção, que foi feita por fertilização in vitro. Mas quando ela ficou doente, eu deixei de poder controlar o que quer que fosse. Estava fora do meu alcance.

Vê-la a sofrer com os tratamentos, sem a poder ajudar, foi desesperante.

Na altura em que a Pippa começou a perder o cabelo, decidimos cortá-lo todo. Quando as minhas outras filhas, de apenas 3 anos, a viram sem cabelo, perguntaram logo se também o podiam cortar.

“Porque é que vocês querem cortar o cabelo?”, perguntei-lhes eu, ao que elas me responderam: “Se a Pippa tem de cortar o cabelo, nós também queremos ficar como ela. Queremos o nosso cabelo bem curtinho”.

Aquele foi o momento mais doce a que assisti. Ali percebi que, mesmo com apenas 3 aninhos, as minhas filhas tinham percebido tudo aquilo que eu lhes tinha explicado: que a Pippa estava doente, e que ia precisar de todo o nosso apoio.

Eu sabia que os irmãos tinham uma grande conexão, mas nunca tinha visto um carinho como aqueles.

Durante todo aquele tempo fiz-me de forte. Só fraquejava quando estava sozinha. Tentei ao máximo manter as minhas três meninas afastadas dos meus sentimentos derrotistas; dizia sempre que “a mãe é forte, e vamos todas superar isto”.

Mas depois percebi que também é importante que os nossos filhos vejam a nossa fragilidade.

Quando estava triste, sentava-me com elas e explicava-lhes o porquê de estar em baixo. Fui sempre honesta; falava-lhes do tratamento da irmã e dos receios que tinha. Não sei se elas percebiam tudo, mas reconfortava-me saber que elas já não achavam que eu era uma “super-mulher”, que também chorava e tinha medo, tal como elas.

Contudo, a minha maior surpresa foi a forma como a Pippa reagiu a todo este turbilhão.

A minha filha é uma miúda incrível.

Quando ela começou a fazer quimioterapia, após cada sessão, perguntava sempre se podia ir almoçar à escola com os amigos. Uma das vezes em que eu lhe disse que não, que ela precisava de descansar, ela respondeu-me logo “não, não mamã. Eu tenho mesmo de ir. Hoje o almoço vai ser caril de frango”.

Apesar de todos os cuidados, foram raras as vezes que a Pippa deixou de ir à escola. Ela não queria perder os amigos, e eles não a queriam perder a ela.

Cheguei a propor-lhe dar-lhe aulas em casa, mas ela não aceitou, dizia-me que queria, que precisava de ir, que amava a escola e que queria fazer parte de tudo.

Mesmo quando ela perdeu o cabelo, eu pensei que ela não iria querer voltar, mas ela foi com um lenço na cabeça.

Imperturbável.

“Eu pareço diferente das outras crianças, mamã”, disse-me ela algumas vezes, mas nunca se sentiu desconfortável, pelo contrário.

Depois de passar por tudo isto, a Pippa quer tornar-se uma “médica do cancro” quando crescer.

Tudo porque, quando os médicos lhe estavam a explicar que ela tinha leucemia e que existiam vários tipos de células, ela ficou muito confusa, e perguntou: “Se o plasma é amarelo e os glóbulos vermelhos são vermelhos, de que cor são as células da leucemia?”.

E foi nesse momento, quando o médico deixou de saber o que responder, que o bichinho da medicina lhe mordeu.

Quando saímos do consultório, ela virou-se para mim e disse-me: “Mamã, já decidi. Eu quero ser médica. O meu médico não me explicou tudo, houve coisas que eu tive de lhe perguntar. E eu quero explicar tudo às crianças que, tal como eu, têm cancro, sem que elas tenham de perguntar o que quer que seja”.

Texto redigido por Laura, mãe de uma menina sobrevivente de cancro

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