Países em desenvolvimento: a carga do cancro infantil

Quando a filha de sete anos de Eunice Mmbalasi, Shantel, adoeceu em 2017, a jovem mãe levou imediatamente a criança para o hospital.

Com o lado esquerdo da barriga inchado e sem conseguir parar de vomitar, os médicos do Hospital Distrital de Mbagathi, no Quénia, diagnosticaram Shantel com úlceras; aliviada, Eunice foi à farmácia, comprou os medicamentos e voltou para casa, juntamente com a sua filha.

Mas os medicamentos não fizeram efeito.

Shantel, uma menina ativa e animada, estava agora retraída, sem forças, pálida e muito magra. As vizinhas de Eunice aconselharam-na a procurar um feiticeiro, uma prática comum num país em desenvolvimento, como o Quénia.

Mas Eunice não aceitou o conselho, e voltou a levar Shantel ao Hospital Distrital de Mbagathi; desta vez, a jovem foi sujeita a uma tomografia computadorizada, que revelou a existência de uma massa no lado esquerdo do abdómen.

Mas como a confiança entre Eunice e os médicos daquela instituição tinha sido quebrada, a mãe procurou uma segunda opinião, desta vez no Hospital AIC Kijabe.

“Logo ali, os médicos disseram-me que a Shantel não tinha sangue suficiente, daí a palidez”, conta a mãe.

Seguiram-se mais exames, que revelaram que Shantel tinha um linfoma não-Hodgkin, um tipo de cancro que se desenvolve no sistema linfático; o cancro da menina tinha já progredido para estágio 3.

“Fiquei chocada e cheia de medo – nunca tinha ouvido falar de uma criança com cancro”, revelou Eunice; infelizmente, a desinformação sobre o cancro infantil atinge níveis muito elevados em países como Quénia.

Eunice precisou de aconselhamento médico contínuo para ajudá-la a aceitar o diagnóstico e também entender o que era, afinal, a doença da sua filha.

Mas a notícia de que Shantel tinha cancro foi apenas o começo de uma longa e árdua jornada que faria com que o pai da criança perdesse o emprego.

“As viagens que tínhamos de fazer até ao hospital tornaram-se cada vez mais frequentes, e o meu marido queria estar sempre ao lado da nossa filha. Mas o patrão dele não gostou, e ele foi demitido”, conta Eunice.

O cancro pode trazer vários constrangimentos financeiros, especialmente se não houver seguros médicos, mas, de alguma forma, esta família conseguiu o dinheiro necessário para que Shantel tivesse acesso aos tratamentos; o mesmo não acontece com muitas outras famílias da região.

“Em muitos casos, durante a primeira e segunda visita hospitalar, ambos os pais acompanham a criança ao hospital, mas a partir da terceira visita, apenas um dos pais, na maioria dos casos a mãe, passa a vir com a criança… muitas vezes a ausência é por questões laborais, mas outras, deve-se à separação do casal. Muitos casamentos não sobrevivem ao difícil processo de tratamento do cancro infantil”, revela Sarah Muma, oncologista pediátrica.

A médica fala também da falta de informação que existe em países em desenvolvimento.

“Há muita ignorância em torno do cancro; muitas pessoas acham que as crianças não têm cancro, e esse é um dos principais culpados dos diagnósticos tardios”, explica a médica cujos pacientes, na sua maioria, procuram tratamento quando a doença progrediu para o estágio 2 ou estágio 3.

Fonte: Daily Nation

Comments are closed.
Newsletter