Os efeitos tardios dos tratamentos em sobreviventes de cancro infantil: problemas dentários, hepáticos e imunitários

Os efeitos secundários decorrentes dos tratamentos para o cancro pediátrico podem não ser imediatamente identificados pelos clínicos ou especialistas que acompanham os sobreviventes de cancro infantil.

Isso pode causar vários problemas, anos mais tarde, quando esses mesmos sobreviventes são observados por profissionais de saúde “que não têm em conta o seu historial clínico oncológico”, alerta Karen Effinger, docente na Universidade de Emory, nos Estados Unidos, e diretora clínica do programa de sobreviventes do Centro de Saúde Infantil Aflac Cancer and Blood Disorders de Atlanta.

“Infelizmente, ainda existem muitos médicos que acham que, se um paciente conclui o tratamento oncológico sem sentir os efeitos do tratamento, esses efeitos não irão aparecer mais tarde. Mas isso nem sempre acontece”.

Karen relata a história de um sobrevivente de cancro infantil que, já adulto, “consultou um cardiologista que tinha certeza de que a doença cardiovascular diagnosticada a esse paciente não estava relacionada com o tratamento oncológico a que o paciente tinha sido submetido em criança”.

“Quando tive conhecimento deste caso, expliquei ao paciente que sim, os sintomas que ele estava a sentir eram derivados do tratamento que tinha feito anos atrás. É muito comum que os efeitos secundários ocorram entre 10 a 15 anos após o tratamento”.

No geral, Karen afirma que profissionais de saúde que lidem com sobreviventes de cancro infantil “beneficiam de uma maior consciencialização sobre o potencial impacto a longo prazo do tratamento do cancro infantil”.

“Ainda há muita coisa por saber. E ainda há muita coisa por perceber”.

Problemas dentários

Tal como acontece com vários sistemas e estruturas corporais, os dentes também sofrem mudanças profundas durante a infância. Quando uma criança em crescimento recebe um tratamento forte para erradicar o cancro, os dentes e gengivas da criança ficam ainda mais vulneráveis ​​a danos.

“A maioria das pessoas não sabe que as crianças que são submetidas a tratamentos oncológicos, especialmente crianças com menos de 5 anos de idade, correm um maior risco de desenvolverem problemas dentários”.

“Por exemplo, quando uma criança cujos dentes permanentes ainda não se desenvolveram na altura do tratamento, existe uma grande probabilidade de nunca os vir desenvolver. Ou seja, ficam apenas com os seus dentes de leite. Também existe outro fenómeno, que é os dentes permanentes desenvolverem-se, mas ficarem muito pequenos”.

Os sobreviventes também podem ter problemas relacionados com o enfraquecimento do esmalte, o que leva a um aumento no número de cavidades e, por sua vez, a uma maior dificuldade na colocação de aparelhos dentários.

Segundo Karen, a relação entre o tratamento para o cancro infantil e problemas dentários ainda não é muito conhecida, “nem por pacientes, nem por dentistas”.

“Felizmente, isso começa a mudar, mas ainda há muitos médicos dentistas que, ou não conhecem os efeitos ou têm receio de tratar os pacientes oncológicos pediátricos após estes terem recebido terapia”.

Problemas hepáticos

Os tratamentos para o cancro infantil também podem afetar o sistema gastrointestinal e o fígado; de acordo com Karen, tanto o transplante de medula óssea como a radioterapia abdominal podem resultar em sintomas gastrointestinais, como diarreia ou obstipação crónicas.

Outros agentes, como alguns medicamentos quimioterápicos, também podem causar toxicidade hepática.

“Apesar de ser capaz de regenerar, o que o torna altamente resistente, a verdade é que o fígado também é suscetível aos danos causados pelos mais diversos tratamentos”.

O excesso de depósitos de ferro no fígado, relacionados a transfusões de glóbulos vermelhos, a fibrose hepática ou, embora raramente, a cirrose, estão entre os efeitos secundários tardios mais comummente observados em sobreviventes de cancro infantil.

“Isso leva a que, cada vez mais, tenhamos suspeitas de que existe uma relação entre os tratamentos oncológicos infantis e a doença hepática gordurosa”.

“Os sobreviventes, especialmente aqueles que recebem muitos esteroides durante os tratamentos, podem aumentar muito o peso, e a forma como a gordura que ganham é metabolizada pode estar associada a esta doença hepática. Apesar de ainda não termos conseguido estabelecer essa relação, as suspeitas são mais que muitas”.

Recuperar o sistema imunitário

Embora o transplante de células estaminais hematopoiéticas possa ser um tratamento que salva a vida de crianças com leucemias e linfomas, este tratamento também pode deixar os pacientes vulneráveis ​​a vários efeitos imunitários e dermatológicos tardios.

“Os efeitos que afetam o sistema imunitário devem-se, principalmente, à supressão imunitária prolongada”, explica Smita Bhatia, diretora do Instituto Cancer Outcomes and Survivorship, também nos Estados Unidos.

“Sempre que alguém é sujeito a um transplante, especialmente a um transplante alogénico, o sistema imunitário precisa de fazer a sua própria recuperação; e, muitas vezes, nunca recupera na totalidade”.

A médica e investigadora dá exemplos de pacientes pediátricos oncológicos que, “depois de recuperarem, deparam-se com o facto de o seu sistema imunitário não se conseguir ‘recordar’ que o paciente já teve sarampo ou rubéola, ou que foi vacinado contra essas doenças”.

Por esse motivo, Smita alerta para a necessidade desses mesmos pacientes, após serem submetidos a tratamentos oncológicos, deverem “ser testados para perceber se eles retiveram imunidade” uma vez que, caso isso não tenha acontecido, “eles vão precisar de ser novamente vacinados”.

Fonte: Healio

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