“O que o cancro infantil me roubou”: o testemunho de uma sobrevivente

Quando as pessoas falam sobre a sua experiência com o cancro, sobre os seus tratamentos, é comum falarem sobre aquilo que o cancro não lhes tirou, como a esperança ou felicidade, por exemplo.

Mas raramente falam sobre todas as coisas que o cancro nos rouba e que são impossíveis de recuperar.

Quando o cancro aparece enquanto somos crianças, a vida ainda é muito curta para sequer termos experimentado o que quer que seja. Muitas opções, muitos caminhos, deixam de existir.

E por isso, acreditem, não tem mal se sentirmos ou se ficarmos tristes por todo aquele tempo e por todas aquelas oportunidade e brincadeiras que perdemos durante e após os tratamentos.

A coisa mais importante que o cancro nos tira quando somos crianças é precisamente a infância. A possibilidade de sermos, apenas e só, crianças.

A vida deixa de ser aquilo que deveria ser, deixa de se basear em brincadeiras, em jogar futebol, em brincar às escondidas, em excursões da escola, em festas de aniversário… em vez disso, a infância passa a estar repleta de inúmeras consultas médicas e dias e dias no hospital.

O foco não são mais as brincadeiras e a felicidade. O foco está em sermos saudáveis e mantermo-nos vivos.

E depois, na maioria dos casos, chega a remissão.

E quando se entra em remissão, é suposto estar tudo terminado, não é? É suposto que a vida volte ao normal e que nos possamos voltar a ser aquilo que somos, crianças.

Mas essa não é a realidade de um sobrevivente de cancro infantil.

Acho que a melhor maneira de descrever a vida após o cancro é que vivemos sempre numa liberdade condicionada. E todos os dias me questiono: “será que algum dia este sentimento vai desaparecer? Será que algum dia vou conseguir sentir-me como todas as pessoas ao meu redor, que vivem uma vida despreocupada?”

Eu acho que mais do que tudo na vida, eu só queria sentir-me como essas pessoas.

Os meus amigos sempre viveram despreocupados e sempre foram capazes de se divertir. Já eu, sempre me senti um bocado deslocada.

Acredito que essa sensação advém do infeliz fator de eu não ter tido outra escolha a não ser ter crescido e amadurecido antes do tempo. Perdi muitas coisas, muitos momentos e isso fez com que me tornasse mais amarga. Com raiva até.

O cancro infantil é como um monstro, um pensamento mau que nunca saiu da minha mente.

Mas também aprendi que não há problema em sentir raiva. Só não podemos é deixar que essa raiva afete a nossa vida. Podemos, sim, usá-la para fazer a diferença no mundo.

Embora esta doença não tenha desaparecido, todos os dias espero que surja uma cura. Não para mim, que estou curada, mas para todas as crianças que venham a ser diagnosticadas.

Quero que haja melhores tratamentos, quero que seja descoberta uma cura, para que essas crianças tenham a oportunidade de viver as suas vidas.

Temos que exigir que o cancro infantil se torne uma prioridade. Temos que exigir mudanças para que as crianças com cancro possam ter a oportunidade de viver como todas as outras crianças.

Texto redigido por Ali Wymer, uma sobrevivente de cancro infantil

Fonte: Yahoo

 

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