O peso de ser rotulada como “sobrevivente”

Estou livre do C-A-N-C-R-O!

Em 1998, quando tinha 8 anos de idade, fui diagnosticada com um linfoma de Burkitt. Durante cerca de 1 ano, a minha vida foi pautada entradas e saídas do hospital, até que, por altura do Natal festejei a minha vitória contra o cancro.

Ciente de que aquela vitória não era só minha, mas também de todos os médicos que me ajudaram e de todas as crianças que, tal como eu, estavam confinadas àquelas 4 paredes, eu e a minha família preparámos uma festa especial, onde distribuímos presentes por todos os meus “colegas” da ala pediátrica.

Em criança, mantive a minha história privada – apenas a família e os amigos mais próximos sabiam que eu tinha enfrentado, e derrotado, o cancro. Mas, há medida que fui crescendo, senti que tinha que falar, que tinha de contar a minha história.

Quando deixei de ter problemas em falar sobre as minhas lembranças e experiências, apercebi-me que a palavra cancro deixava as outras pessoas desconfortáveis.

Curiosamente, nunca gostei do termo “sobrevivente”, sempre senti que era um desrespeito para aqueles que não tinham sobrevivido, mesmo que, tal como eu, tivessem lutado com todas as suas forças contra aquela doença.

Para além disso, ao dizer que era “sobrevivente de cancro” estava a colocar-me numa redoma que não me definia.

“Cancro” é uma palavra que aparece em todo o lado: nas notícias, nos anúncios, em conversas, em angariações, mas, muitas vezes, há uma desconexão entre a experiência real de um indivíduo e as ideias e imagens mais retratadas pelos media.

Uma das coisas que as pessoas de fora muitas vezes não percebem é que os doentes oncológicos, ou pelo menos eu, não vivemos no “Tempo do cancro”.

A vida não faz uma pausa enquanto temos cancro. Sim, o cancro é grande parte daquele período de tempo, mas existem outras coisas. A experiência do tratamento do cancro mistura-se com outras experiências, e todas elas dão um contributo para a nossa identidade.

Mesmo doentes, não somos “pessoas com cancro”, somos apenas pessoas.

Como “sobrevivente”, e embora o meu diagnóstico de cancro tenha ocorrido há duas décadas atrás, ainda me vejo a navegar entre o não sentir que tenho que esconder algo que me impactou de uma maneira significativa e a necessidade de não me definir como uma “sobrevivente” ou “Lutadora”.

Ser “sobrevivente de cancro” significa estar constantemente consciente das expetativas e pressuposições que esse rótulo atrai.

Há pouco tempo, senti a carga que esse rótulo pode ter; numa consulta de rotina que nada tinha a ver com o cancro, apenas com uma dor de garganta, o único tema que interessava aos médicos era a minha jornada, as minhas cicatrizes. Senti-me “posta dentro de uma caixa” da qual, por mais que tivesse tentado, não consegui sair.

Sim, é verdade, embora não o queira admitir, ser “sobrevivente de cancro” faz, e fará para sempre, parte da minha identidade. Mas não uso esse rótulo para me definir e sim para encontrar inspiração.

Hoje escrevo livros e canções, ajudo outras crianças e vivo a minha vida, como uma “pessoa normal”.

Texto redigido por Hannah D, uma pessoa que venceu o cancro infantil

Fonte: Yahoo

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