O cancro infantil e a forma como este afeta a saúde mental das famílias

Pais e irmãos de crianças com cancro podem ter de lidar com questões de ansiedade, stress e outros problemas de saúde mental muito tempo após o diagnóstico inicial de cancro infantil, de acordo com um novo estudo que descobriu que os familiares de crianças com cancro têm taxas elevadas de visitas a médicos relacionadas com a saúde mental muitos anos depois do diagnóstico inicial.

A investigação, publicada no Journal of Clinical Oncology, examinou dados de saúde de 4 773 mães e de 7 897 irmãos de crianças diagnosticadas com cancro, entre 1998 e 2014, no Canadá.

O estudo descobriu que mães de crianças diagnosticadas com cancro tinham uma taxa 40% maior de consultas ambulatoriais relacionadas à saúde mental, em comparação com a população em geral. Os irmãos tiveram uma taxa 10% maior de visitas a médicos de família ou a psiquiatras.

Além disso, essas taxas elevadas persistiram até 20 anos após o diagnóstico da criança.

“É óbvio que, ao sermos confrontados com um diagnóstico de cancro infantil na família, isso irá afetar a nossa saúde mental. O que nos surpreendeu foi o número de consultas que esses familiares necessitavam muito tempo após o diagnóstico inicial”, explicou Sumit Gupta, o principal autor do estudo e oncologista no The Hospital for Sick Children, no Canadá.

“Esses dados fizeram-nos questionar sobre o que podemos fazer para ajudar estas pessoas”.

Os resultados sugerem que é necessário garantir que os familiares de pacientes com cancro pediátrico tenham acesso a recursos de saúde mental a longo prazo; embora, hoje em dia, alguns hospitais ofereçam apoio às famílias, o contato desses familiares com os hospitais tende a diminuir após o término do tratamento das crianças.

Sumit Gupta acrescentou que também é necessário procurar maneiras de intervir enquanto a criança ainda está a receber tratamento, ou logo após o tratamento, para diminuir o risco de os membros da família sofrerem problemas de saúde mental posteriormente.

O estudo, apoiado pela organização SickKids, utilizou dados hospitalares e registos de nascimento para identificar mães e irmãos de crianças diagnosticadas com cancro.

Os investigadores examinaram o número de visitas ambulatoriais – ou seja, visitas a um psiquiatra ou médico de família por razões de saúde mental – feitas após o diagnóstico de uma criança pelas suas mães e irmãos, em comparação com as visitas de controlos correspondentes da população em geral.

O estudo também analisou o número de “eventos psiquiátricos graves”, definidos como visitas ao departamento de emergência psiquiátrica, hospitalizações psiquiátricas e suicídio.

Os cientistas descobriram que mães e irmãos não tiveram maiores taxas de eventos psiquiátricos graves. No entanto, as mães tiveram mais consultas ambulatoriais em saúde mental, em comparação com os controlos, uma taxa elevada que permaneceu constante ao longo do tempo.

Nos irmãos, as taxas dessas visitas superaram as do grupo de controlo; mais de metade das consultas ambulatoriais de mães e irmãos eram para tratar transtornos de ansiedade.

Segundo a psiquiatra Cécile Rousseou, que acompanha crianças no Hospital Infantil de Montreal, embora os irmãos possam não entender completamente a situação, eles conseguem sentir a ansiedade dos pais, e essa ansiedade pode ser “contagiosa”. A médica, que não participou no estudo, incentiva os pais a validar os seus filhos, reconhecendo que estão preocupados mas dizendo que a culpa não é deles.

“Dizer às crianças que ‘está tudo bem’ não é a solução. É até angustiante para esses irmãos e irmãs, porque eles sentem, e sabem, que algo não está bem”.

Para Antonia Palmer, mãe de três filhos, os resultados do estudo dão-lhe força para continuar a tratar da sua saúde mental, mesmo que o seu filho tenha terminado os tratamentos contra um cancro há alguns anos.

O filho mais velho de Antonia, o jovem Nate, hoje com 12 anos, foi diagnosticado aos 2 anos de idade com um neuroblastoma de alto risco; durante 5 anos, o rapaz foi sujeito a tratamentos intensivos, complexos e dolorosos que salvaram a sua vida, mas que o deixaram com efeitos a longo prazo, incluindo perda auditiva profunda.

Durante todo o tratamento, Antonia tentou mostrar um rosto corajoso e muitas vezes escondia os seus medos, raivas e frustrações.

“Enquanto o meu filho esteve em tratamentos, eu tentei esconder todas as minhas emoções. Só lhe queria mostrar a força e a confiança que tinha nele. Mas quando o tratamento terminou, todas aquelas emoções negativas voltaram com uma força indescritível. E eu tive de lidar com elas”, conta esta mãe, relembrando o dia em que percebeu que toda aquela opressão de sentimentos estava a afetá-la.

“Um dia, do nada, comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente. Estava na cozinha, a preparar o jantar… só me lembro de cair no chão e chorar. Sentia-me impotente, oprimida, vazia…”

O marido de Antonia, Aaron, também sofreu com problemas de ansiedade, tal como os irmãos de Nate, Alex, de 10 anos, e Jonathan, de 7.

“É difícil de explicar. O meu filho, embora com alguns problemas decorrentes do tratamento, está curado. Está vivo. Mas eu sinto que tenho que fazer um luto. De quê? Não sei explicar. Parece que o cancro infantil nunca sai das nossas vidas…”

Fonte: The Globe and Mail

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