Neuroblastoma: nova investigação pode vir a ser crucial para o desenvolvimento de novos tratamentos

Numa investigação realizada em ratos com neuroblastoma de alto risco, cientistas observaram que, em resposta a uma nova combinação de tratamento com medicamentos de precisão, os tumores dos animais desapareceram.

Realizada pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, esta investigação está a ser encarada como um passo vital em direção a um tratamento potencialmente curativo para uma forma de cancro difícil de tratar que afeta crianças: o neuroblastoma.

As descobertas, publicadas na revista Nature Communications, são o resultado de uma colaboração entre cientistas das Universidades de Gotemburgo e de Ghent, na Bélgica.

O neuroblastoma é uma forma de cancro infantil que afeta o sistema nervoso periférico, ou seja, o sistema que exclui o cérebro e a medula espinhal.

Na Suécia, entre 20 a 30 crianças por ano são diagnosticadas com neuroblastoma; este tipo de cancro pode ter início nas glândulas suprarrenais, por exemplo, mas os tumores podem ocorrer por todo o corpo.

“Em alguns casos, a doença pode ‘cicatrizar’ e desaparecer por si mesma, mas as formas agressivas de neuroblastoma têm um prognóstico mais desfavorável. Os atuais padrões de tratamento são muito difíceis de serem submetidos a crianças e os efeitos secundários podem ter consequências para o resto das suas vidas”, explicou Ruth Palmer, a investigadora principal.

A investigação mostrou que um tratamento que combina dois medicamentos de precisão diferentes, um inibidor de ATR e um inibidor de ALK, eliminou o crescimento de neuroblastoma em ratos.

“Após 14 dias de tratamento, os tumores desapareceram completamente em dois modelos de ratos independentes. Um dos animais sofreu uma recidiva após 200 dias, o que é um tempo muito longo para um rato. Por outro lado, todos os outros animais continuam vivos”, disse Dan Emil Lind, outro dos cientistas envolvidos na investigação.

“Estamos muito surpreendidos com este resultado tão positivo. É notável que um protocolo de duas semanas que combina estes dois medicamentos de precisão possa levar à regressão completa do tumor em dois modelos separados de neuroblastoma em ratos”.

“Em testes em cultura com linhagens de células humanas, vemos os mesmos padrões de expressão de RNA e proteínas que observámos em ratos tratados com este novo regime, o que mostra que estamos no caminho certo”, afirmou Jimmy Van den Eynden, do Cancer Research Institute, na Universidade de Ghent.

Até ao momento, o grupo de investigadores não conseguiu entender exatamente o porquê de este tratamento combinado funcionar tão bem.

No entanto, uma parte importante da sua hipótese é que o sistema imunitário das cobaias recebeu sinais das células tumorais que fizeram com que as células imunitárias naturais se infiltrassem e destruíssem as células tumorais.

“Os nossos resultados vão para além das nossas melhores expetativas. Já iniciámos um acompanhamento com outros inibidores de ATR para investigar como eles afetam o sistema imunitário destes animais. Queremos entender como é que este tratamento é tão eficaz”.

Os mecanismos moleculares pelos quais surge o neuroblastoma são apenas parcialmente conhecidos. O que provavelmente ocorre é que surgem defeitos no desenvolvimento do sistema nervoso periférico, o que resulta num desequilíbrio que favorece a formação do neuroblastoma. Os defeitos subjacentes na célula podem ser a perda de um gene importante, a super-expressão e / ou ativação de uma proteína específica ou a mutação de uma proteína ou gene específico.

Um quarto de todos os casos de neuroblastomas de alto risco surge quando o oncogene MYCN é super-expresso. Em muitos casos, essa super-expressão ocorre em combinação com um aumento na atividade da proteína ALK. Quando esses oncogenes são expressos e ativos numa célula cancerígena, ela tende a dividir-se mais rapidamente, podendo ocorrer uma espécie de “stress de replicação”.

Os resultados desta investigação sugerem que pacientes com neuroblastoma, e especialmente aqueles em grupos de alto risco onde a combinação dos genes MYCN e ALK levam ao stress de replicação, podem beneficiar do tratamento medicamentoso com inibidores de ATR.

“Os medicamentos retardam o crescimento do cancro, mas não corrigem o defeito fundamental. Portanto, são necessárias opções de tratamento adicionais para neuroblastoma de alto risco impulsionado pelos oncogenes ALK e MYCN”, concluem os cientistas.

Fonte: Mirage News

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