Mãe dá testemunho emocionante sobre batalha do filho contra o cancro

Às vezes pergunto-me se estarei a sonhar. Olho à minha volta e sinto que não pertenço à minha própria vida. Os últimos 8 meses foram uma tempestade. 
“O meu filho de 2 anos tem cancro no cérebro”, nunca pensei que teria que dizer estas palavras; mas tive que o dizer, e essas palavras mudaram tudo. 
Em outubro de 2017, antes do segundo aniversário de Tre, percebi que ele estava a ficar muito desajeitado. Mas ele era um bebé e a maioria das crianças é naturalmente desajeitada. No entanto, algo parecia diferente. Ele segurava a parede enquanto andava e, às vezes, caía. Por achar aquilo estranho, eu falei com a minha família e amigos, mas eles disseram-me que não devia ser nada. 
Como normalmente, levei o meu filho para o seu check-up pediátrico dos 2 anos na primeira semana de novembro. O médico não ficou alarmado, até porque o Tre não tinha nenhum outro sintoma mas, graças a Deus, confiou no meu instinto e encaminhou-nos para um neurologista pediátrico, afim de termos uma segunda opinião. Duas semanas depois, eu contei a mesma história ao neurologista que, tal como o primeiro médico, não ficou preocupado mas, como mãe é mãe, mandou o Tre fazer uma ressonância magnética para que se dissipassem quaisquer dúvidas. 
E desta forma, apenas duas semanas depois, a 28 de novembro de 2017, a minha vida mudou.
Estava um dia frio. Na minha cabeça eu ia fazer a ressonância magnética com o Tre e de seguida iria fazer uma pequena “terapia de compras” no supermercado. 
Convencida de que estava a ficar paranoica, resolvi ir sozinha até ao médico, até porque o exame não iria detetar nada e nós continuaríamos o nosso dia de forma normal. 
Passados 10 minutos de o Tre ter iniciado o exame, uma enfermeira veio ter comigo à sala de espera e eu, feliz por a ver, perguntei como tinha corrido. Não estava preparada para o que ela disse em seguida. Eu não poderia estar preparada, porque nada na vida nos prepara para isto. 
“Encontrámos uma massa no cérebro do seu filho. Eu sinto muito. A senhora está sozinha? Será que pode chamar alguém para vir ter com consigo?”, disse a enfermeira.
Sem palavras, fechei os meus olhos, na esperança que isso fizesse este pesadelo acabar, mas isso não aconteceu. Foi-me dito que os médicos iam fazer outro exame, mais detalhado, e que depois iria falar com o neurologista para discutir os resultados. Eu sabia que isto não ia terminar bem. Os meus instintos de mãe estavam certos, mas eu teria dado qualquer coisa para que eles estivessem errados. Qualquer coisa.
O meu marido e a minha sobrinha chegaram ao hospital e a minha mãe ficou a cuidar dos meus outros 5 filhos, que estavam em casa. O Tre acordou e nós fomos todos ter com o médico. Eu não posso imaginar o quão difícil deve ser dar más notícias aos pais sobre os seus filhos. A massa estava na parte de trás do cérebro, e parecia que podia ser um meduloblastoma, um cancro cerebral infantil. Ali estava a palavra que todos temíamos. Como diabos uma criança de 2 anos fica com cancro? Porque raios uma criança de 2 anos tem cancro? 
O médico mandou-nos ir para casa, fazer a mala para que o Tre fosse fazer uma cirurgia ao Primary Children’s Hospital, pois eles queriam remover aquele tumor o mais rápido possível. O médico que iria operar o meu filho estava fora da cidade, mas voltou para que a cirurgia se realizasse no dia a seguir de manhã. Quando chegámos ao hospital, o Tre foi sujeito a outra ressonância magnética, desta vez ao cérebro e à coluna, onde foram encontradas manchas na coluna do meu filho. O pesadelo continuava a piorar, e eu só queria acordar deste sonho mau. Mas não, ninguém acordou. Esta era a nossa nova vida, a nossa nova normalidade. E eu odiei cada segundo. 
A cirurgia durou 12 horas; os médicos removeram o tumor com sucesso e acharam que não precisariam de voltar a operar para retirar mais partes residuais. Aleluia! A melhor notícia até agora. 
Mas não foi uma recuperação fácil. O Tre passou algum tempo na Unidade de Cuidados Intensivos, até ser transferido para a Unidade de Neurologia. O meu filho tornou-se num menino diferente, uma criança que não conseguia andar, que não conseguia controlar os braços e as pernas como dantes. Fiquei preocupada quando vi que o seu olho esquerdo não estava bem, mas os médicos disseram-me que isso era normal, e que ele, provavelmente, iria recuperar a maioria das habilidades motoras que tinham sido perdidas após a cirurgia.
Aquele internamento hospitalar foi talvez o mais difícil de todos. O Tre só deveria ficar internado durante uma semana, mas acabou por ficar quase 3. 
Depois vieram as hemorragias internas, o que obrigou a uma cirurgia de emergência e a mais tempo nos Cuidados Intensivos. Eu sentia-me como um zumbi que andava por ali, emocional e fisicamente esgotada. A saúde do Tre consumia todos os meus pensamentos. Mas eu ainda tinha 5 outras crianças em casa, que estavam preocupadas, perdidas e tristes.
O diagnóstico do meu filho foi confirmado enquanto ele estava internado: meduloblastoma de estágio 4, com metástases na coluna, mas não no líquido espinhal. 
Como é que se pode processar toda esta informação? Um minuto de cada vez, foi assim que fizemos; as horas eram demasiadas, e então concentrámo-nos no passar dos minutos. Mas mesmo isso era doloroso. 
Fomos para casa durante uma semana e começámos os tratamentos de quimioterapia no dia 20 de dezembro. Sim, antes do Natal. O cancro era muito agressivo, e os médicos não queriam esperar. Então, tivemos um Natal antecipado em casa, um Natal incrível e maravilhoso. 
Mas era difícil não ficar obcecada com o que viria a seguir.
Tentar cuidar de 6 crianças é um trabalho difícil. É um trabalho que te empurra para os teus limites físicos e emocionais diariamente. E agora, eu tinha que entregar o meu trabalho de mãe para outras pessoas, para que pudesse estar com o Tre no hospital. A sorte é que tive, e tenho, a mais incrível de todas as famílias. Eu tenho 3 irmãs e uma mãe que me ajudaram em tudo; juntas, fizeram um cronograma de tudo aquilo em que meus filhos estavam envolvidos e descobriram como fazer tudo. E fizeram. 
Nem por uma vez tive que me preocupar com as necessidades dos meus filhos que estavam em casa. Eu sabia que eles e
stavam a ser amados e muito bem cuidados. E isso foi um alívio. Os meus vizinhos também ajudaram com as boleias para a escola e para as atividades extracurriculares e traziam-nos o jantar durante todo o tempo que durou o tratamento. Estaríamos perdidos sem eles. 
Graças a Deus estávamos cercados de muito apoio. Foi verdadeiramente inspirador. Foi doado dinheiro, foram oferecidos passeios, a relva foi cortada, a comida foi preparada, a casa foi limpa e os meus outros filhos, mesmo sem a mãe presente, foram amados. Apesar de tudo, nós fomos abençoados, disso eu tenho a certeza.
O Tre fez 6 rondas de quimioterapia enquanto estava internado e foi sujeito a 3 transplantes de células estaminais. Durante a maior parte do tratamento, o meu filho ficou confinado a um quarto de hospital, tudo para o manter saudável. Geralmente ficava internado durante 3 semanas, e depois voltávamos a casa por uma semana… apenas para repetir o processo na semana a seguir. 
Os dias eram longos e duros. O Tre sentia-se horrivelmente mal e vê-lo a passar por todos aqueles efeitos secundários foi difícil, muito difícil. Ter que segurá-lo para tirar sangue e vê-lo a sofrer enquanto o vestia também era difícil. 
Ele não queria estar ali, ele não entendia o que estava a acontecer. Ele estava a enlouquecer e eu também. 
O cancro é a pior coisa que existe. 
Uma das quimioterapias que ele recebeu teve como efeito secundário a perda auditiva. Por isso mesmo, os médicos monitorizaram a sua audição após cada ronda de tratamentos. Descobrimos que depois da terceira ronda ele já estava a perder a audição no ouvido esquerdo. Honestamente, eu já me sentia morta por dentro, já era tão difícil demonstrar emoções. Mas isso pôs-me ainda mais em baixo. Não era justo. O Tre não merecia isto. 
As últimas rondas de transplantes foram difíceis. O Tre estava cada vez mais doente e cada vez mais desgastado. E o que me deixava ainda mais triste era que o meu filho já estava acostumado à sua vida no hospital. Ele cooperava com as enfermeiras em tudo, sabia aquilo que elas precisavam e ajudava-as em tudo. Isso partia-me o coração, porque eu odiava que aquilo fosse a sua nova normalidade. Ele provavelmente já não se lembrava do que era a sua vida fora do hospital. Ele não sabia que tinha uma vida incrível em casa, com irmãos e irmãs que o adoravam e que sentiam muito a falta dele. 
O último dia de internamento foi a 3 de julho de 2018. O meu filho conseguiu. Nós conseguimos. Tocámos a campainha da quimioterapia depois da última transfusão de sangue. Ele não sabia bem o que estava a acontecer e provavelmente nunca se irá lembrar. E parte de mim fica feliz por isso, embora eu queira que ele saiba o quão corajoso ele foi pela forma como lidou com o cancro, como um campeão. Ele sorria mesmo quando se sentia horrível. Ele deu abraços, fez fisioterapia, mesmo quando tudo era dor. Ele saiu da cama todos os dias e tentou fazer o melhor possível. Ele cantava com as meninas da musicoterapia. Ele gritou connosco quando já não aguentava mais, mas estava tão cheio de vida e foi tão engraçado durante todo o tratamento. Claro, ele teve alguns dias terríveis, mas também teve alguns bastante radicais. Ele foi uma inspiração para mim. 
As enfermeiras e os médicos foram uma grande parte de todo este processo, pois não poderíamos ter feito isto sem a sua amizade e apoio.
O Tre irá fazer a sua ressonância magnética pós-tratamento daqui duas semanas, um exame que determinará se o cancro está 100% fora do corpo dele. Depois fará uma ressonância magnética a cada três meses durante um ano para garantir que esta doença não volte. Quanto melhor ele fica, mais tempo vamos ter entre os exames. Há muitos efeitos secundários da quimioterapia que podemos não ver até daqui a muitos anos, e por isso mesmo, o seu oncologista irá acompanhá-lo durante toda a infância para monitorizá-los e oferecer apoio quando necessário.
É difícil explicar todas as emoções que eu senti, e sinto. Mas sou grata, e sempre, sempre agradecida. Mas continuo triste com o diagnóstico e como isso mudou a minha vida. Sinto-me louca, sinto-me culpada por sentir estes sentimentos, porque afinal o Tre venceu o cancro. E pessoalmente conheço muitas mães que não podem dizer isso e que terão sempre um buraco nos seus corações por causa desta maldita doença a que chamamos cancro. 
A minha fé também me ajudou em alguns dos momentos mais sombrios. Eu tive que decidir e perceber aquilo em que eu acreditava. Eu tive que praticar a minha fé, e isso foi muito difícil. Eu fiquei louca durante muito tempo, e parei de rezar por raiva. Mas esta é minha jornada e eu sei que encontrarei o meu caminho. Isto não vai me matar. 
O cancro é uma porcaria, e essa é a verdade. Mas por causa disso, nós amamo-nos mais, rimo-nos mais alto e abraçamo-nos de uma forma mais forte. A perspetiva é tudo. E eu sou eternamente grata por ter tido outra oportunidade na vida.
Texto redigido por Alison Quenneville, mãe de Tre, um menino de 2 anos que sobreviveu a um cancro

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