Investigação sugere que imunoterapia pode ser eficaz no tratamento de tumores cerebrais pediátricos

Um ensaio clínico inovador, liderado por Nicholas Vitanza, um neuro-oncologista do Seattle Children’s Hospital, nos Estados Unidos, sugere que o uso da imunoterapia CAR-T pode vir a ser viável em crianças diagnosticadas com cancro cerebral.

Os resultados, publicados na revista Nature Medicine, são as descobertas iniciais do ensaio clínico de imunoterapia BrainChild-01, realizado pelo Seattle Children’s Therapeutics, o primeiro de três testes que procuram atingir de forma abrangente todos os tipos de tumores pediátricos do cérebro e da medula espinhal.

O Seattle Children’s Therapeutics é uma unidade da divisão de pesquisa do Seattle Children’s Hospital; esta unidade está a tentar desenvolver imunoterapias promissoras com células CAR T para os primeiros ensaios clínicos deste tipo em crianças.

Esta unidade dedica-se a desenvolver e a testar células de última geração e terapias genéticas para doenças pediátricas, “para que as crianças tenham os medicamentos que merecem”.

“Esta investigação ainda está num estágio muito inicial, mas os primeiros resultados (muito promissores) sugerem que a nossa abordagem pode ser segura”, explicou Nicholas Vitanza.

“Estamos empenhados em, não apenas, encontrar curas para crianças e jovens adultos com tumores do sistema nervoso central, como também em fornecer tratamentos mais toleráveis ​​e com menos efeitos secundários a longo prazo.”

Os tumores do cérebro e da medula espinhal são os cancros mais comummente diagnosticados em crianças, sendo responsáveis ​​por aproximadamente um em cada quatro cancros infantis. A cada ano, mais de 4 mil tumores cerebrais e da medula espinhal são diagnosticados em crianças e adolescentes – alguns desses tumores têm uma alta taxa de letalidade.

A imunoterapia com células CAR T é um tratamento experimental que estimula o sistema imunitário a combater doenças. O tratamento reprograma as células T (glóbulos brancos do sistema imunitário que combatem as doenças) para eliminar células cancerígenas.

Neste ensaio, o tratamento tem como alvo a proteína humana tirosina quinase 2 do recetor erb-b2 (HER2) em células cancerígenas; o estudo está a ser desenvolvido para crianças e jovens adultos com opções de tratamento limitadas.

A proteína é expressa por muitos tumores cerebrais comuns em crianças. As células T são administradas diretamente no espaço do sistema nervoso central por infusão no fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal ou na cavidade após a ressecção do tumor. Doses de células T são administradas semanalmente, principalmente em ambiente ambulatorial.

Nos resultados iniciais já publicados, os cientistas relataram em detalhe uma avaliação preliminar do seu ensaio clínico de fase I, tornando-se no primeiro grupo a publicar as descobertas iniciais sobre a viabilidade de entregar repetidamente as células CAR T diretamente ao cérebro em crianças e jovens adultos.

A investigação pretende responder a uma série de perguntas, principalmente se é seguro administrar doses repetitivas de terapia com células T no cérebro ou no fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal desta população.

Para além disso, os cientistas também tentam avaliar a melhor dose de terapia para crianças e jovens adultos com tumores do sistema nervoso central, procurando responder se a terapia com células T funciona contra estes tumores.

A abordagem “apoia a viabilidade de gerar HER2CARs para regimes de dosagem repetidos e sugere que a sua entrega repetida no sistema nervoso central pode ser tolerável”.

Devido aos resultados promissores do ensaio BrainChild-01, outros estudos estão já em andamento, de forma a que seja possível entender melhor quão bem e por quanto tempo as células CAR T operam contra o tumor.

“Esta pesquisa é uma ótima notícia para crianças como eu, que temem a possibilidade de uma recidiva, uma vez que isso aumenta a probabilidade de morte”, disse Avery Berg, uma jovem diagnosticada com um cancro cerebral raro e agressivo e que hoje está em remissão.

“Este ensaio fornece esperança para uma nova opção de tratamento, e isso é muito bom”, diz.

O Seattle Children’s Hospital é um líder internacional no esforço para tratar melhor o cancro em crianças, adolescentes e adultos jovens; esta instituição possui o programa de imunoterapia com células CAR T pediátricas mais abrangente do mundo, o que significa que trata mais tipos de cancros infantis usando esta terapia do que qualquer outra instituição.

Para além do BrainChild-01, o Seattle Children’s Hospital está ainda a desenvolver outros dois ensaios clínicos, também dirigidos a crianças com tumores do sistema nervoso central, denominados BrainChild-02 e BrainChild-03.

O BrainChild-03 inclui pacientes com glioma pontino intrínseco difuso, um tumor cerebral universalmente fatal; este ensaio é um dos primeiros a testar células CAR T em crianças com este tipo de cancro, e foi também o primeiro a administrar repetidamente as células CAR T por via intracraniana num paciente pediátrico com glioma pontino intrínseco difuso.

No total, os três ensaios BrainChild, todos liderados por Nicholas Vitanza, estão a analisar mais de três dezenas de crianças e jovens adultos.

Fonte: Seattle Children’s

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