Grady, a esperança para a infertilidade dos sobreviventes

Grady é um macaco fêmea que gosta de petiscar nozes e brincar com uma bola saltitante que tem duas vezes o seu tamanho; na maioria dos aspetos, Grady é um macaco normal – o que torna as circunstâncias do seu nascimento ainda mais notáveis.

O pai de Grady foi submetido a quimioterapia quando tinha apenas 3 anos de idade. O tratamento às vezes causa infertilidade, de modo que os pacientes que o recebem, quando são muito jovens para depositar uma amostra de esperma ou congelar os seus óvulos, muitas vezes não conseguem ter filhos biológicos.

Mas antes que o pai de Grady fosse sujeito a quimioterapia, investigadores removeram um dos seus testículos e armazenaram o tecido; quando o macaco atingiu a puberdade, as amostras de tecido foram implantadas sob a pele, onde cresceram o suficiente para formar espermatozoides.

Depois, tudo o que foi preciso para gerar Grady foi a fertilização in vitro padrão, de acordo com um estudo publicado na revista Science.

Os cientistas estão otimistas de que esta mesma abordagem pode, um dia, ajudar os meninos que passam por tratamentos agressivos de cancro.

“Os pais de meninos com cancro perguntam-me muitas vezes o que posso fazer pelos seus filhos ao nível da infertilidade, e a resposta que eu dava, até agora, era ‘nada’”, disse Jesse Mills, investigador na Universidade da Califórnia, que não esteve envolvido na pesquisa.

“Por isso, para mim, esta pesquisa não é um ponto de partida – é um ponto de viragem que vai permitir reformular a conversa sobre uma vida plena para as crianças depois da cura.”

Quando um homem adulto é diagnosticado com cancro, ele pode congelar os seus espermatozoides antes de iniciar a quimioterapia ou tratamento com radiação e usá-lo mais tarde em tratamentos padrão de fertilidade. Mas os pacientes que ainda não atingiram a puberdade não têm essa opção, pois ainda não produzem espermatozoides.

Investigadores estimam que cerca de 30% dos sobreviventes de cancro infantil serão inférteis quando forem adultos; à medida que a taxa de sobrevivência do cancro infantil aumenta, aumenta também o número de pacientes curados que não se conseguem reproduzir.

“Este é um problema novo. No passado, as crianças não sobreviviam ao cancro, pelo que a infertilidade não era sequer uma questão. Mas agora, quando nos chega um caso de cancro infantil, temos que pensar no tratamento, na cura e no pós-doença”, disse Susan Taymans, do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano, nos Estados Unidos.

No novo estudo, os investigadores propuseram-se a demonstrar que o precursor infantil do esperma poderia ser preservado tão efetivamente quanto o próprio esperma.

A equipa da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, liderada por Kyle Orwig, removeu um testículo de cinco macacos pré-púberes. Os membros da equipa cortaram o tecido em pequenos pedaços e congelaram-nos durante cerca de cinco meses.

Os macacos não tinham cancro, mas o tratamento quimioterápico simulava a experiência de pacientes com cancros reais.

Em seguida, os cientistas descongelaram as amostras de tecido preservadas e implantaram-nas sob a pele. Cada macaco recebeu enxertos do seu próprio tecido, tanto nas costas quanto no escroto.

Para avaliar o desempenho das amostras de tecido congeladas, os cientistas também removeram os testículos remanescentes dos cinco macacos e implantaram tecido testicular fresco ao lado das amostras preservadas.

Cerca de quatro meses depois, Kyle recebeu a visita da coautora do estudo, Karen Peters, que lhe queria dar uma grande novidade: os enxertos estavam a crescer.

Todos os 39 locais de tecido testicular amadureceram e produziram espermatozoides ao longo de um ano. Alguns dos enxertos previamente congelados geraram até 21 milhões de espermatozoides.

A parte inferior da pele tem muitos vasos sanguíneos minúsculos, e os cientistas suspeitam que a lesão causada por incisões e agulhas de sutura pode ter um maior desenvolvimento de espermatozoides estimulando a cicatrização e levando os vasos sanguíneos a alcançar os enxertos.

O esperma pode ser encontrado independentemente do tecido testicular ter sido congelado ou fresco. Também não importava se o tecido fosse implantado nas costas ou no escroto; caso o tratamento funcione em humanos, os homens podem ser enxertados com o tecido testicular na parte superior do braço ou em qualquer outro lugar, disseram os cientistas.

Os investigadores recolheram esperma suficiente para fertilizar mais de 130 óvulos de macacos; eles transferiram 11 embriões para seis macacos fêmeas, um dos quais teve uma gravidez bem-sucedida e deu à luz Grady.

Os cientistas estudaram atentamente o comportamento de Grady, incluindo os seus hábitos de brincadeira, habilidades sociais e até mesmo a quantidade de contato visual que ela tem com a sua mãe.

“Acredite-se, ou não, a Grady é um macaco comum”, disse Kyle Orwig.

Se o sucesso desta experiência puder ser repetido noutros laboratórios, o teste em humanos “será o próximo passo lógico”; os testes em humanos podem ser bastante não-invasivos, usando uma pequena biópsia de apenas um quarto de testículo.

“Se eu fosse pai de uma criança pré-adolescente que enfrenta um diagnóstico de cancro, iria voluntariar-me para algo desta natureza, para poder dar ao meu filho a possibilidade de paternidade no futuro”, disse Kyle.

Mais pesquisas ainda são necessárias para mostrar que a técnica funciona com pequenas biópsias que deixam os testículos intactos, e que o tecido testicular deixado para trás não enviaria sinais hormonais que interferissem na função do enxerto.

Outra preocupação é que o tecido testicular recolhido de crianças com cancro no sangue, como leucemia, pode abrigar células cancerígenas malignas, o que poderia “ressuscitar” a doença anos, ou mesmo décadas, depois de os pacientes estarem curados.

Como resultado, o tratamento pode ser limitado a pacientes com cancros que não se espalharam para os testículos, como sarcomas de tumores sólidos e neuroblastomas.

Kyle Orwig confessou que já congelou tecidos testiculares de mais de 200 pacientes humanos, que estão esperançosos de que esta terapia estará disponível quando eles estiverem prontos para a paternidade.

Fonte: LA Times

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