Glioblastoma: estudo revela descobertas surpreendentes

O glioblastoma, um tipo de cancro que surge nas células gliais de sustentação do cérebro, é um dos piores diagnósticos que uma criança pode receber.

O tumor de grau IV, altamente maligno, infiltra-se agressivamente no tecido cerebral saudável, e a maioria das crianças morre entre 1 a 2 anos após o diagnóstico.

“A abordagem atual passa pela remoção cirúrgica, radioterapia e, em seguida, algum tipo de quimioterapia, mas não há quimioterapia que melhore a sobrevida. É um tumor muito agressivo, cruel até, que ainda não conseguimos entender”, disse Mariella Filbin, neuro-oncologista pediátrica do Dana-Farber/Boston Children’s Cancer and Blood Disorders Center, nos Estados Unidos.

A investigadora fez parte de um estudo, publicado na revista Cell, que fez algumas descobertas surpreendentes sobre o glioblastoma; independentemente de qual mutação genética causa a doença, ela pode rapidamente mudar entre quatro tipos de células distintas, cada uma das quais pode precisar ser direcionada separadamente.

Geralmente diagnosticado em crianças em idade escolar, o glioblastoma infantil é muito semelhante ao diagnosticado em adultos; contudo, geneticamente, é completamente diferente: assim como muitos outros cancros infantis, as suas várias mutações genéticas tendem a “sequestrar” as vias normais do desenvolvimento inicial do tecido cerebral, que regulam as funções celulares.

Em crianças e adultos, o glioblastoma pode assumir muitas formas; mas, até aqui, pensava-se que dentro de um determinado paciente, todas as células tumorais seriam as mesmas. Esta investigação mostrou que isso não era verdade, sendo que os investigadores entendem agora que este tumor funciona como uma espécie de mosaico.

A investigação, que contou com a colaboração de diversas entidades ligadas ao cancro infantil, observou tumores de 8 crianças e 20 adultos de uma forma bastante meticulosa, analisando célula a célula.

No total, foram avaliadas mais de 24 mil células, às quais foram feitas, individualmente, o sequenciamento do RNA; o RNA funciona como um software, fornecendo uma leitura de quais genes estão ligados e quais proteínas a célula está a construir.

“A aplicação de novas tecnologias deu-nos a oportunidade de entender o que impulsiona esta doença de uma forma que era impensável há alguns anos atrás. Se olharmos para as células de forma individual, conseguimos ver que elas são muito diferentes umas das outras”, explicou a investigadora.

A equipa distinguiu 4 tipos distintos de células tumorais. Cada tipo assemelhava-se a diferentes tipos de células normais do cérebro em desenvolvimento: células progenitoras neurais, células progenitoras de oligodendrócitos, astrócitos e células mesenquimais.

As proporções dos diferentes tipos de células variaram de acordo com o defeito genético que conduz o cancro do paciente; mas todo os pacientes tinham os 4 tipos de células tumorais.

Os cientistas observaram que os 4 tipos de células poderiam transformar-se umas nas outras.

O estudo descobriu que os glioblastomas são altamente “plásticos”, uma vez que os seus tipos celulares se transformam rapidamente ao longo do tempo e quando expostos a tratamentos contra o cancro. Quando os cientistas injetaram qualquer um dos 4 tipos de células de tumor de pacientes em ratos, todos eles formaram tumores que eram compostos pelos 4 tipos de células.

“Isso explica o porquê de os medicamentos com um único alvo falharem. Os tumores têm a capacidade única de se conseguirem transformar em algo diferente e, desta forma, escapar às terapias medicamentosas”.

Recentemente, Mariella Filbin e os seus colegas usaram o sequenciamento de RNA unicelular para fazer o perfil de outro tumor mortal conhecido como glioma pontino intrínseco difuso (DIPG). Nos tumores causados ​​por uma mutação específica, os cientistas descobriram um tipo de célula imatura que constantemente se dividia e proliferava como células estaminais, alimentando a disseminação do tumor.

Ao contrário do glioblastoma, as células do DIPG pareciam transformar-se em apenas uma direção: algumas células não autorizadas foram capazes de se diferenciar em células mais maduras.

Esse pormenor oferece uma nova abordagem para explorar: fazer com que essas células de propagação de tumores amadureçam e se tornem menos uma ameaça. Os cientistas acreditam que outros tumores podem seguir essa “hierarquia unidirecional”.

“Quanto mais jovem a criança, mais imaturos os tumores, e mais unidirecional pensamos que eles serão, porque se assemelham ao desenvolvimento inicial. As crianças mais velhas podem ter maior probabilidade de seguir um padrão de glioblastoma”.

Quanto ao glioblastoma, as novas descobertas indicam a necessidade de terapias combinadas que atinjam todos os 4 estados tumorais de uma só vez.

Os investigadores planeiam experimentar diferentes combinações de abordagens de edição de genes e fármacos que visem mudar o estado das células. Esses fármacos podem bloquear as vias moleculares que mantêm as células tumorais num estado imaturo, ou direcionar o acondicionamento do ADN para a cromatina, que determina qual RNA é transcrito.

“Chegou a hora de pegarmos nestas descobertas e aplicá-las em novas terapias”, concluíram os cientistas.

Fonte: News Medical Net

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