Genética: Sobreviventes em maior risco de acidente vascular cerebral

Sobreviventes de cancro infantil, com uma certa variante genética comum, que foram tratados com radioterapia craniana estão em maior risco de sofrer um acidente vascular cerebral, de acordo com dados apresentados na reunião anual da American Association for Cancer Research.

Nos Estados Unidos, o cancro é uma das principais causas de morte entre crianças com 14 anos, ou menos; mas devido aos avanços no tratamento, há um número crescente de sobreviventes.

De acordo com Yadav Sapkota, do St. Jude Children’s Research Hospital, a atual taxa de sobrevivência a 5 anos de cancro infantil é agora maior que 85%; nos anos 60, esta mesma taxa variava entre 20% a 30%.

“Mas a cura tem um preço, porque as terapias contra o cancro podem causar problemas de saúde”, explicam os investigadores.

Embora alguns desses problemas de saúde sejam de curto prazo, à medida que os sobreviventes de cancro infantil envelhecem, a maioria experimenta efeitos tardios dos seus tratamentos, como cancros secundários, infertilidade e acidente vascular cerebral.

No St. Jude Children’s Research Hospital, Yadav Sapkota e os seus colegas estão a realizar um estudo retrospetivo, com acompanhamento clínico prospetivo, de sobreviventes de cancro infantil para identificar fatores de risco para esses efeitos posteriores do tratamento da doença.

Estes sobreviventes estão a passar por avaliações clínicas abrangentes, bem como sequenciamento do genoma completo, com dados atualmente disponíveis para 4 500 pacientes.

“Os sobreviventes de cancro infantil de longo prazo têm aproximadamente oito vezes mais riscos de sofrer um acidente vascular cerebral, em comparação com os seus irmãos”, disse Yadav Sapkota, acrescentando que a radioterapia craniana é um fator de risco conhecido.

Embora exista uma relação dose-resposta entre a radioterapia craniana e o risco de acidente vascular cerebral, a variação nessa associação sugere que o risco pode ser influenciado por fatores genéticos.

A equipa de investigação analisou genomas inteiros de 686 sobreviventes de cancro infantil com ascendência europeia. Os pacientes tinham mediana de 40,4 anos e todos foram tratados com radioterapia craniana quando eram crianças, principalmente para leucemia ou cancro cerebral. Além disso, 116 ou 17% desses pacientes desenvolveram um AVC clinicamente diagnosticado.

Os investigadores descobriram uma associação significativa no genoma entre uma variante comum no locus 5p15.33 e AVC associado à radioterapia craniana; essa variante, localizada no cromossoma 5, próximo aos genes IRX1, LINC01019 e LINC01017 é comum, com os investigadores a relatarem que ela está presente em cerca de 18% da população em geral.

Sobreviventes de cancro infantil com este alelo tiveram um risco quase três vezes maior de acidente vascular cerebral em comparação com os sobreviventes que não tinham o alelo de risco. Além disso, quase metade dos sobreviventes com acidente vascular cerebral levou pelo menos uma cópia do alelo de risco.

A associação entre este alelo e risco de AVC foi confirmada numa amostra separada de sobreviventes de cancro infantil, com descendência africana, tratados com radioterapia craniana.

Dentro do grupo de ascendência europeia, a força da associação genética variou entre os pacientes com base na dose de radiação que receberam quando crianças; pacientes com o alelo de risco que receberam uma dose intermediária de radiação apresentaram maior risco de AVC.

Esses pacientes tiveram um risco quase cinco vezes maior de acidente vascular cerebral.

Ao mesmo tempo, pacientes com o alelo de risco que receberam uma dose baixa de radiação tiveram um aumento de 2,4 vezes no risco de derrame, enquanto pacientes com alelo de risco que receberam uma alta dose de radiação tinham três vezes maior risco de acidente vascular cerebral, o que sugere que, em doses mais altas, a radiação pode ter maior influência no risco do que a genética.

Segundo os cientistas, estes dados podem ajudar a identificar sobreviventes de cancro infantil com maior risco de derrame e ajudar a desenvolver abordagens para minimizar o risco posterior.

Fonte: Genoma Web

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