Vacinas anticancerígenas podem ser o futuro do tratamento do cancro pediátrico

Paul Thomas, membro do Departamento de Imunologia do St. Jude Children’s Research Hospital, nos Estados Unidos, um conceituado especialista norte-americano em cancro pediátrico, considera que o futuro do tratamento do cancro infantil deverá passar pelo desenvolvimento de vacinas anticancro, as quais, acredita, trarão melhores resultados no combate à doença, pelo que é necessário investir a apostar mais nesta abordagem.

Até ao momento, as terapias imunológicas tiveram mais eficácia no tratamento do cancro em adultos do que em crianças, disse o especialista, embora acredite que os estudos e investigações em curso possam mudar essa realidade.

Nos últimos anos, registaram-se avanços significativos no desenvolvimento de imunoterapias que permitem ao sistema imunológico combater tumores em adultos, mas essas estratégias imunológicas não são tão eficazes em doentes pediátricos, afirmou Paul Thomas.

No entanto, os ensaios clínicos que estão a decorrer neste momento mostram que uma vacina contra o cancro pode ser capaz de superar alguns dos problemas atualmente registados nos tratamentos oncológicos baseados no sistema imunológico, como a inibição do ponto de verificação imune e a terapia com células CAR-T em crianças.

Encontrar alvos para combater o cancro infantil 

Paul Thomas explicou que as vacinas contra o cancro têm como foco a mutação genética que está a causar o crescimento do tumor. No entanto, referiu que menos de 10% dos cancros infantis têm mutações genéticas similares às dos cancros em adultos. 

“Se um adulto viveu muitos anos, teve muito tempo para acumular mutações, (e) pôde estar exposto a compostos e substâncias que causam mutações, como poluição, fumo de cigarro ou muita luz solar”, explicou o especialista. Por outro lado, “as crianças têm muito menos tempo de vida e de exposição e, portanto, têm menos mutações nos tumores que desenvolvem, e estas são causadas por outros fatores do que aqueles associados aos tumores em adultos”, acrescentou.

Atualmente, as investigações direcionadas para o tratamento do cancro pediátrico estão a avaliar que tipo de mutações ou biomarcadores podem ser o alvo do combate à doença, destacou Paul Thomas, dando o exemplo de um alvo potencial, a chamada proteína de fusão, que ocorre quando “o corpo une duas proteínas que não estão relacionadas uma com a outra”.

“O que precisamos de descobrir é a fórmula correta dessas vacinas e a abordagem ótima para as administrar de forma a superar a potencial supressão imunológica que os tumores exercem sobre o sistema imunológico”, explicou o cientista.

A abordagem da terapia celular CAR-T

Mesmo que os pacientes pediátricos tenham um sistema imunológico preparado para combater o cancro, por via da imunoterapia com CAR-T, muitas vezes não há uma resposta intensa o suficiente para destruir todo o tumor, ou a resposta pode ser insuficiente ou não funcionar.

Apesar disso, as terapias com células CAR-T têm avançado. Esse tipo de imunoterapia, cada vez mais usada e eficaz no tratamento de cancros sanguíneos, funciona ao retirar sangue do corpo do paciente, manipular as células T (células imunes) ali presentes para atacar o cancro. As células T são multiplicadas e depois administradas novamente no doente.

Essa terapia “aumenta a quantidade de células T para atacar o cancro no organismo”. No entanto, não é um tratamento “perfeito”, pois os tumores – tanto em crianças quanto em adultos – geralmente encontram uma forma de suprimir o sistema imunológico, e é por isso que muitos estudos já mostraram que uma grande parte dos tumores sólidos não responde ao tratamento com CAR-T.

“Os tumores sólidos criam um microambiente dentro de si mesmos que precisamos de conhecer melhor para os atingir efetivamente”, disse Thomas.

Vacinas contra o cancro infantil poderão ser uma solução mais eficaz

As vacinas contra o cancro são uma potencial opção de tratamento que está a ser explorada como terapia inovadora para pacientes com cancro pediátrico.

“As vacinas permitem aumentar a quantidade e a qualidade (das respostas imunes) e vão fazê-lo de forma mais barata e rápida e potencialmente um pouco menos tóxica do que a imunoterapia com células CAR-T”, explicou Paul Thomas. Esta não é a panaceia para todos os males, mas é uma abordagem que temos de “experimentar, alterar e melhorar”, sublinhou.

O investigador explicou que a investigação com foco nas vacinas pediátricas contra o cancro ainda está nos estágios iniciais e que grande parte da investigação realizada até o momento tem sido focada na terapia com células CAR-T para essa população. Mas Thomas está otimista no avanço das investigações e desenvolvimento de vacinas contra o cancro pediátrico. 

“Apesar de todos desejarmos que o progresso seja muito mais rápido, há avanços a cada mês; já foram feitos grandes avanços nesta área que me fazem pensar que atingiremos essa meta [ter vacinas contra o cancro infantil] mais cedo ou mais tarde, de forma a criar terapias extremamente eficazes, menos tóxicas e aplicáveis a vários tumores”, concluiu o especialista. 

Fonte: Cure Today

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