Pais procuram explicação para o aumento de casos de cancro infantil

A grande paixão de Oliver Strong era o futebol. Até à sua morte, causada por uma leucemia mieloide aguda, em junho de 2015, quando tinha apenas 12 anos, Oliver era um atleta que se destacava, um rapaz saudável, vibrante e popular, cujo entusiasmo pela vida inspirava todos aqueles que o rodeavam.

Quando, de um momento para o outro, o jovem morreu, apenas 36 horas depois de os médicos o terem diagnosticado com leucemia, os seus pais, Simon e Vilma, começaram a procurar por respostas.

O que descobriram foi, segundo os próprios, “perturbador”.

De acordo com o National Cancer Institute, entre 1975 e 2018, o número de casos de cancro infantil aumentou quase 50%, só nos Estados Unidos; em 2018, cerca de 16 mil crianças, entre os 0 e os 19 anos, foram diagnosticados com cancro.

No entanto, o que realmente elevou a inquietação dos pais de Oliver foi a crescente preocupação com o papel que os agentes tóxicos ambientais carcinogénicos, incluindo resíduos industriais e poluentes, desempenhavam no desenvolvimento do cancro infantil.

“Há quase um consenso científico implícito de que a causa é ambiental”, disse Simon Strong que, juntamente com a sua esposa, criou a Oliver Forever Strong, uma fundação que serve para homenagear o seu filho.

Esta organização uniu-se a cientistas do Hospital Infantil do Texas para um ambicioso estudo de pesquisa, juntamente com o Baylor College of Medicine.

Através de um site, o estudo irá aproveitar as redes sociais para recolher informações com uma ampla distribuição geográfica; famílias com as suas próprias experiências podem-se inscrever e receber um questionário que procura recolher várias informações, incluindo a manifestação e progressão dos cancros, bem como dados demográficos.

Michael Scheurer, diretor do programa de prevenção e epidemiologia de oncologia pediátrica no Hospital Infantil do Texas, acredita que “este método permitirá que famílias que não moram perto de um dos centros de estudo existentes participem no estudo.”

“Percebemos que os indivíduos não sabem se foram expostos a um determinado agente químico, por isso tentamos reunir uma visão geral do seu ambiente, de onde eles viveram ao longo do tempo, quando a criança foi concebida… No final, se virmos que vários tipos de cancro compartilham alguns fatores de risco que são informações importantes, queremos criar um grupo muito homogéneo e investigar esses pacientes”, explicou o médico.

Simon e Vilma perderam o seu filho em 2015. – Fonte: The Guardian

Fatores ambientais

Os pais de Oliver acreditam que esta pesquisa permitirá construir um quadro mais detalhado da correlação entre os químicos tóxicos e o cancro infantil.

“Eu, como a maioria das pessoas, achava que o cancro infantil era apenas fruto da má sorte e de genes malformados… mas depois percebi que, se calhar, nós, enquanto sociedade, somos discretamente incentivados a pensar dessa forma. Certo dia, li um artigo publicado pela Organização Mundial de Saúde onde se debatia que o cancro seria desencadeado por agentes externos que danificam o nosso ADN e a capacidade do nosso corpo lidar com esse dano”.

Apesar de não poder garantir que o cancro do seu filho foi causado por agentes químicos, Simon afirma que nunca mais irá usar o inseticida que usou para se livrar das ervas daninhas do seu jardim, pouco antes dos sintomas de Oliver começarem a aparecer.

“Tanto o Oliver como o seu irmão, o Edward, disseram-me odiavam o cheiro daqueles inseticidas, Já depois do Oliver falecer, reparei que um dos compostos daquele produto era o glifosato, um químico que foi considerado carcinogénico pela International Agency for Research on Cancer”.

Mas Simon vai mais longe, e afirma que também a relva artificial pode ter desempenhado um papel no aparecimento da doença do seu filho.

“Basta que olhemos para a relva e para os materiais que a compõem: a relva artificial é feita maioritariamente de pneus de veículos usados, é petroquímica. Existem regulamentos rígidos para a disposição de pneus de veículos completos, mas não existe quase regulação para o seu uso sem ser em carros. E nós sabemos que este tipo de material é utilizado em casas, em campos de futebol…”.

“Ou seja, comecei a aperceber-me que, não só expus o Oliver a inseticidas, como aos compostos químicos da relva artificial, tanto em casa como no campo de futebol onde ele treinava. Não sei, nem posso afirmar, que foi isso que levou a que o meu filho desenvolvesse cancro, mas sei que, se fosse hoje, não o teria exposto”.

A família Strong começou a analisar as incidências e os grupos de cancro infantil em todo o país e os possíveis fatores ambientais por trás deles, o que levou ao lançamento do projeto thereasonswhy.us.

“Atualmente, a International Agency for Research on Cancer está a estudar os carcinogénios no nosso meio ambiente. Contudo, a indústria farmacêutica continua a focar-se apenas na deteção, diagnóstico e tratamento… Ninguém se foca na prevenção e o motivo para isso é simples: a prevenção não dá dinheiro”.

Os cortes no financiamento

O financiamento dado por fundos privados para a pesquisa sobre o cancro infantil continua a ser muito maior do que o financiamento dado pelo governo norte-americano, algo que a maioria dos pais de crianças com cancro não entende, uma vez que esta é a doença que mais crianças mata no país.

Em fevereiro de 2019, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um investimento de 500 milhões de dólares (cerca de 449 milhões de euros), em 10 anos, para combater o cancro infantil; contudo, Trump também reduziu muitas das proteções ambientais que podem, segundo Simon, contribuir para o desenvolvimento da doença.

Existem dezenas de milhares de produtos químicos sintéticos registados, mas apenas uma pequena proporção é testada quanto à toxicidade.

“Esses produtos estão em todo o lado. Nos alimentos, nas embalagens, nas nossas roupas, nos materiais de construção, em produtos de limpeza, em brinquedos…a lista é interminável. O curioso é que nada se sabe sobre os efeitos da exposição simultânea a vários produtos químicos”, alerta o pai de Oliver.

“Mas as pessoas já estão mais atentas. Nos últimos tempos, centenas de comunidades de todo o país, têm exposto as suas preocupações em relação à utilização desmesurada destes químicos. Queremos que sejam conduzidos estudos sobre a qualidade da água, do ar e do solo. As comunidades estão cada vez mais ativas”.

Em última análise, Simon espera alistar milhares de famílias para o estudo, sendo que, até agosto, acredita que estarão inscritas mais de 200 crianças.

“Queremos que a sociedade invista na saúde e não na doença. Queremos que os nossos jovens sejam saudáveis, que possam celebrar a vida, que é o dom mais precioso que temos”, afirma.

Através da pesquisa, os pais de Oliver esperam honrar a sua memória. – Fonte: The Guardian

“O Oliver era um jovem com compaixão, com empatia, com um forte senso de justiça. Acredito que, onde quer que ele esteja, ele sabe que estamos a fazer tudo isto por ele. Já não o podemos salvar, mas podemos ajudar a salvar outras crianças. É isso que nos move”.

Fonte: The Guardian

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