Dar um futuro melhor aos sobreviventes: a missão de Tricia King

Tricia King nunca esquecerá o caso clínico que marcou a sua carreira enquanto profissional de saúde.

Na altura, a médica frequentava uma pós-graduação, onde testava as habilidades cognitivas de um sobrevivente de cancro cerebral pediátrico. Tricia ficou surpreendida ao descobrir que a pontuação de QI do paciente havia descido cerca de 30 pontos desde a última vez que o paciente havia sido testado.

“Foi impressionante. No caso daquele paciente, verificámos uma coisa muito interessante – apesar de ele ter retido toda a cultura e conhecimento que tinha na altura do tratamento, após ter sido submetido a terapias oncológicas ele demorava muito mais tempo a reter informações do que indivíduos da mesma faixa etária, mas saudáveis”, explicou a neuropsicóloga.

“Aquilo que senti foi que estava num momento de viragem. Durante muito tempo, as investigações na área da oncologia focaram-se apenas nas taxas de sobrevivência e não nas complicações após os tratamentos que salvam vidas. Hoje, estamos numa fase em que queremos melhorar a sobrevivência e ajudar os sobreviventes a prosperar.”

Tricia King estuda sobreviventes de longo prazo com problemas de neuro-desenvolvimento que ocorrem na infância, incluindo doenças cardiovasculares congénitas, lesões cerebrais e tumores cerebrais pediátricos.

O seu trabalho foca-se em analisar os fatores que contribuem para a vida de um paciente após uma interrupção do desenvolvimento, como o cancro.

No Setembro Dourado – mês de sensibilização para o cancro infantil, a revista Georgia State University Research Magazine quis falar com esta investigadora sobre a forma como o cancro e o seu tratamento podem afetar as crianças ao longo da vida.

À medida que o diagnóstico e os tratamentos precoces melhoram, cada vez mais crianças sobrevivem ao cancro. Hoje em dia, 84% das crianças com sobrevivem por, pelo menos, 5 anos após o diagnóstico. Mas, uma vez em remissão, a verdade é que estas crianças continuam a enfrentar vários problemas. Consegue dizer-nos quais são alguns dos efeitos secundários que estes sobreviventes têm de enfrentar?

Atualmente, os cientistas estão a aprender muito sobre de que forma o tratamento oncológico pode afetar o crescimento e o desenvolvimento das crianças. Estes fatores podem, sem sombra de dúvidas, alterar as trajetórias de desenvolvimento destas crianças.

Sendo crianças, não se trata apenas de uma potencial perda de função, mas sim da incapacidade de ganhar conhecimento na mesma proporção que os seus pares saudáveis. A taxa de aprendizado pode diminuir drasticamente no caso de sobreviventes de cancro infantil. E aqui coloca-se a grande questão: “como é que podemos ajudar estes sobreviventes a atingirem as mesmas habilidades que os seus pares estão a desenvolver?”

Existem desafios únicos à medida que os sobreviventes de cancro infantil atingem a idade adulta?

Sim, claro. Numa situação normal, as crianças crescem e querem logo ser independentes. No caso de sobreviventes isso nem sempre é possível, porque existem, de facto, alguns problemas de segurança. Será que eles são autónomos o suficiente? Será que conseguem frequentar a universidade da mesma forma que os seus pares saudáveis? Ter um emprego a tempo integral? Pergunto isto porque vemos que os sobreviventes de cancro infantil têm altas taxas de desemprego na idade adulta.

E depois, há a questão da saúde. No sistema pediátrico há muito apoio para jovens e famílias.

É muito importante, quando os jovens fazem a transição para adultos, que tenham recebido bastante preparação para os ajudar a entender melhor a sua condição, o que é preciso para controlá-la e o que é necessário para suprimir as suas necessidades.

Falemos sobre a sua investigação que tenta analisar a forma como o cérebro é afetado pelo cancro e subsequente tratamento. Qual é o principal foco da sua equipa?

No passado, os cientistas estavam apenas preocupados com as taxas de sobrevivência; depois, começaram a preocupar-se também com os níveis de QI no geral. Eu e a minha equipa estamos um bocadinho mais à frente, estamos a observar uma série de habilidades cognitivas essenciais que fazem parte da vida quotidiana, como a atenção, a velocidade de processamento e a memória de trabalho. Essas habilidades são importantes para a comunicação, para a formação de relacionamentos positivos com a família e com os amigos e para o sucesso na escola e no trabalho.

Por exemplo, se a velocidade de processamento for mais lenta, poderão existir problemas a entender conversas cruzadas numa situação social.

Também usamos a neuroimagem para observar as vias da matéria branca e os sistemas cerebrais funcionais que estão a apoiar as habilidades cognitivas.

Dado o grande número de sobreviventes de cancro infantil, um dos objetivos desta investigação é fazer testes de triagem breves nas consultas médicas anuais de acompanhamento que sejam sensíveis a mudanças cognitivas subtis – isso irá permitir à equipa identificar as pessoas que podem beneficiar de uma avaliação mais completa e de intervenções cognitivas – e, em última análise, melhorar o padrão de qualidade do atendimento.

E em relação à genética, qual é o papel que ela desempenha?

Pode ser confuso quando temos duas pessoas que aparentemente parecem idênticas – a mesma idade, o mesmo sexo, o mesmo tipo de tumor, o mesmo tratamento – e ainda assim uma fica boa e a outra demora muito mais tempo a recuperar (se é que o consegue).

A minha equipa está a procurar variações comuns entre os perfis genéticos dos indivíduos, os chamados polimorfismos de nucleotídeo único (SNP’s). Estamos a descobrir que alguns desses SNP’s podem ser preditivos de resultados, tornando as pessoas mais resilientes ou colocando-as num maior risco de dificuldades de longo prazo.

Alguns SNP’s podem até interagir com o tratamento, tornando alguns pacientes mais sensíveis aos efeitos benéficos, embora neurotóxicos, da quimioterapia e da radioterapia. Por exemplo, alguns SNP’s estão relacionados com a neuro-inflamação e com a neuro-plasticidade.

Se pudermos identificar SNP’s críticos, isso pode ajudar-nos a refinar ou a modificar os protocolos de tratamento de pacientes a um nível individual. Por exemplo, alguém pode não precisar de uma dose tão alta de radioterapia ou pode ter o seu tratamento adiado sem que isso aumente o risco de mortalidade. Estamos a ir no caminho da medicina de precisão, onde o tratamento adaptado ao risco é realmente individualizado para aquela pessoa, de forma a ajudar a otimizar os resultados.

A sua equipa também está a investigar o contexto socioeconómico destas crianças. Consegue-nos explicar qual a importância desse fator?

Assim como os SNP’s individuais ou os fatores clínicos, os fatores socioeconómicos também podem contribuir para os resultados. Estamos a tentar perceber se o facto de uma criança não ter acesso a alimentos nutritivos ou se residir num ambiente traumático ou até se não tiver acesso a bons cuidados de saúde pode traduzir-se numa maior dificuldade em conseguir prosperar até ter sobrevivido ao tratamento.

Também estamos a analisar as dificuldades materiais da família e de que forma isso afeta a capacidade de “cuidar”; imagine-se uma família que tem dificuldades enormes e que luta para conseguir por comida na mesa… já pensou na luta que é conseguir lidar com todas as dificuldades acrescidas de ter um filho em tratamento? Em ter de decidir se o dinheiro vai para os alimentos ou para os medicamentos? Haverá depois dinheiro para custear a fisioterapia ou a terapia ocupacional?

Estamos a olhar de uma forma holística para os preditores de resultados cognitivos para entender a recuperação e o crescimento do cérebro em diferentes contextos ambientais e genéticos.

A investigação na área da oncologia pediátrica é, como tão bem se sabe, bastante subfinanciada. Como é que esse fator está a afetar a sua investigação em particular?

O financiamento destinado ao cancro infantil é, efetivamente, muito pouco, principalmente se compararmos ao financiamento que existe para o cancro em adultos. Mas não nos podemos esquecer que estas crianças irão fazer parte, e até depender, do nosso sistema de saúde durante muito tempo, por isso é tão importante que cuidemos delas.

Se olharmos para o número de sobreviventes que agora existem fica claro que precisamos de nos concentrar em ajudá-los na transição para a idade adulta, para que possam alcançar a sua independência e serem membros ativos de nossas comunidades.

Eu sou uma sortuda, não o posso negar. Tanto a American Cancer Society como a Pediatric Brain Tumor Foundation apoiaram os meus trabalhos e estão a apoiar esta investigação.

O facto de haver uma gama de resultados de longo prazo pode ser motivo de esperança. Há pessoas que precisam de apoio para o resto das suas vidas e há pessoas que foram para o curso de medicina depois de terem ultrapassado um tumor cerebral pediátrico. Se pudermos compreender os fatores que contribuem para onde os pacientes se enquadram nesse espectro, podemos usar esse conhecimento para ajudar outras pessoas.

Após o tratamento, quase 95% dos sobreviventes de cancro infantil têm problemas significativos de saúde. Está otimista em relação à melhoria desses resultados para os sobreviventes?

Estou muito otimista. Nos últimos 5 anos, aprendemos muito sobre a genética do tumor e sobre a genética das pessoas e como cada uma pode interagir para prever a resposta ao tratamento e recuperação.

Quando eu estava em início de carreira, não tínhamos nenhuma dessas informações detalhadas. Agora estamos a começar a entender de que forma o subtipo de tumor e a genética afetam a maneira como um paciente processa e se recupera do tratamento. As intervenções cognitivas e de estilo de vida também são promissoras para melhorar os resultados a longo prazo.

Hoje podemos dizer que existem doentes que não precisam de doses tao elevadas de quimioterapia ou de radioterapia. Estamos num caminho em que os conseguimos identificar. É muito gratificante perceber que, com o meu trabalho e com o trabalho da minha equipa, estou a contribuir para dar um futuro melhor a todas estas crianças.

Fonte: Georgia State University Magazine Research

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