Como mudar as taxas de sobrevivência de países em desenvolvimento

Mais de 80% das crianças diagnosticadas com cancro em países desenvolvidos viverão por mais de 5 anos, mas menos de 30% dos jovens com cancro provenientes de países em desenvolvimento têm a mesma probabilidade de sobrevivência, mostrou um novo estudo.

Todos os anos, cerca de 429 mil crianças e adolescentes desenvolvem cancro; a grande maioria – cerca de 384 mil – é proveniente de países em desenvolvimento, de acordo com a investigação publicada na revista Science.

As falhas nos tratamentos são comuns nos países mais pobres por várias razões, incluindo erros no diagnóstico ou a inacessibilidade aos tratamentos; mas, segundo Catherine Lam, autora do estudo e oncologista pediátrica no St Jude Children’s Research Hospital, nos Estados Unidos, a maioria destes motivos é evitável.

A pesquisa sugere que intervenções simples, como o fornecimento de refeições gratuitas e alojamento temporário, podem ajudar a melhorar as taxas de sobrevivência global.

A pobreza, o custo do tratamento e a distância a que os centros de tratamento se encontram são os principais contribuintes para que os pacientes abandonem os tratamentos nos países em desenvolvimento.

Mas, ao fornecer apoio a equipas especializadas e ao eliminar as taxas de abandono, ou seja, fazer com que barreiras socioeconómicas não impeçam as crianças de continuar o seu tratamento, as nações mais pobres poderiam melhorar as suas atuais taxas de sobrevivência.

“O abandono do tratamento pode ser evitado através de intervenções baratas e com baixa tecnologia. Assim, conseguiríamos aumentar a taxa de sobrevivência de 25% para 48%”, disse Scott Howard, coautor do estudo e secretário-geral da International Society of Paediatric Oncology.

“Com este tipo de medidas já conseguimos diminuir as taxas de abandono em algumas localidades de países em desenvolvimento, como em Recife, no Brasil, onde o abandono diminuiu de 16% para 0%”, afirmou.

Com estas intervenções, os investigadores acreditam que será possível atingir a meta de sobrevivência de 60% para todas as crianças diagnosticadas com cancro até 2030, proposta pela Organização Mundial de Saúde.

Os resultados para as crianças nos países em desenvolvimento poderiam ser drasticamente melhorados, abordando questões fundamentais, como o atraso no diagnóstico e a falta de acesso a medicamentos essenciais, afirma o relatório.

“Se não há lugar para as crianças e famílias dormirem, ou se tiverem que viajar durante 8 horas para depois lhes ser dito que têm que arranjar o dinheiro para pagar pelos remédios, isso irá contribuir para o abandono do tratamento.

E, em muitas casos, estamos a falar de crianças que têm um cancro curável”, disseram os cientistas.

“Muitas vezes, o abandono é erroneamente visto como culpa dos pais. Mas se o sistema como um todo não investe em enfermeiras ou médicos suficientes para saber como lidar com crianças com cancro, ou mesmo em medicamentos e tecnologia, cria-se um ciclo perpétuo de desperdício de recursos e de oportunidades perdidas”.

A oferta global de medicamentos de alta qualidade também é uma preocupação importante, apontou o relatório.

“Porque é que uma criança no Reino Unido tem acesso aos medicamentos e tratamentos mais recentes, enquanto uma criança em Myanmar não tem? Porque é que uma família no Reino Unido tem a oportunidade de contribuir para futuras curas ao participar em ensaios clínicos, mas uma família em Mianmar não o pode fazer?”, questionou Catherine Lam.

“Todas as crianças devem ter acesso aos melhores cuidados e às melhores pesquisas que existem atualmente”

Fonte: The Guardian

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