Células modificadas combatem ampla gama de tumores sólidos

Células imunes projetadas para atacar cancros infantis foram capazes de erradicar diferentes tipos de tumores pediátricos em cobaias animais, de acordo com um novo estudo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

O estudo, publicado na revista Clinical Cancer Research, forneceu provas de que essas células modificadas podem ter como alvo muitos tipos de tumores sólidos pediátricos, incluindo tumores cerebrais; estes tumores necessitam de melhores tratamentos, particularmente quando as terapias tradicionais falham.

“O prognóstico para crianças com recidiva de tumores cerebrais ou tumores sólidos ou doença metastática geralmente é desanimador”, disse Robbie Majzner, o autor principal do estudo.

“Estamos entusiasmados por termos uma potencial terapia que pode vir a representar uma nova janela de oportunidade para tratar essas crianças”.

Imunoterapias que funcionam bem em cancros de adultos nem sempre têm sucesso contra o cancro infantil, observou Majzner; uma dessas abordagens utiliza inibidores do ponto de verificação, tendo como alvo mutações genéticas que são limitadas na maioria dos cancros pediátricos.

Outro método de imunoterapia, usando células T recetoras de antígeno quimérico, ou células CAR-T, é a base de um tratamento para uma forma de leucemia infantil recidivante. Essa terapia, tisagenlecleucel (nome comercial Kymriah), emprega biologia sintética para produzir células imunes que reagem a um marcador de superfície encontrado nas células de leucemia.

CAR-T para tumores sólidos pediátricos

Os investigadores decidiram tentar produzir células CAR-T para tumores cerebrais pediátricos e tumores sólidos, incluindo tumores encontrados em ossos e músculos. Estes cancros não carregam os mesmos marcadores de superfície que a leucemia; por isso, o primeiro passo dos cientistas foi procurar outro marcador que as células imunes projetadas pudessem atingir.

O marcador de superfície ideal não deve ser altamente expresso em tecidos saudáveis, para evitar que células imunes manipuladas ataquem tecidos normais.

Os especialistas examinaram 388 amostras de tumores pediátricos para a expressão de um marcador de superfície chamado B7-H3, que estudos anteriores sugeriram que poderia ser um bom candidato.

O B7-H3 foi encontrado em 84% das amostras, e estava presente em altos níveis em 70% das amostras. Verificou-se que muitos tipos de cancro pediátrico expressavam altos níveis de B7-H3, incluindo o sarcoma de Ewing, o rabdomiossarcoma, o tumor de Wilms, o neuroblastoma e o meduloblastoma.

O fato de o mesmo marcador existir em vários tipos de tumores aumenta a probabilidade de que este possa servir como base para uma terapia comercialmente viável, explicaram os cientistas.

“O tumor simplesmente desapareceu”

A equipa de investigação desenvolveu 6 tipos de células CAR-T para atingir o B7-H3; o tipo de células B7-H3 CAR-T com melhor desempenho foi utilizado para estudos posteriores.

Os investigadores testaram essas células B7-H3 CAR-T contra vários modelos cancro pediátrico, nos quais os tumores humanos foram implantados em ratos.

Nas cobaias com osteossarcoma ou sarcoma de Ewing – ambos os tumores ósseos – as células B7-H3 CAR-T erradicaram os tumores; os ratos tratados viveram significativamente mais tempo do que os animais que receberam um tratamento de controlo.

“O tumor simplesmente desapareceu”, afirmou o autor do estudo.

“Aconteceu em todos os ratos, e isso é muito animador.”

Um dos grupos osteossarcoma teve os seus tumores iniciais removidos cirurgicamente; de seguida, os animais receberam células B7-H3 CAR-T para testar se estas poderiam tratar as células cancerígenas que haviam metastisado para os pulmões.

Mais uma vez, as células CAR-T funcionaram; os ratos tratados viveram significativamente mais tempo do que aqueles que estavam num grupo de controlo.

Os investigadores também testaram as células B7-H3 CAR-T em ratos implantados com um tumor cerebral pediátrico chamado meduloblastoma. As células CAR-T foram injetadas no sangue e conseguiram atravessar a barreira hematoencefálica e erradicar os tumores.

O estudo mostrou que as células B7-H3 CAR-T não atacavam as células que expressam baixos níveis de B7-H3, uma descoberta reconfortante, uma vez que algumas células saudáveis produzem baixos níveis do marcador.

Próximo passo? Ensaios clínicos

“Estamos esperançosos com esta descoberta, mas a única maneira de verificar a sua eficácia é testando estas células CAR-T em testes clínicos”, disseram os cientistas.

A equipa planeia agora uma série de ensaios clínicos de fase 1 para as células B7-H3 CAR-T, que deverão iniciar-se em pacientes adultos com tumores cerebrais.

O B7-H3 não é expresso em tecidos saudáveis no sistema nervoso central, o que torna este um bom ponto de partida para testes em humanos.

Fonte: Medical Xpress

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