Cancro infantil: a dor do último beijo

Quando viajo no tempo e penso no ano de 2017, lembro-me de uma época em que a minha vida parecia perfeita – eu tinha um casamento sólido e duas filhas cheias de vida.

A Nora era uma criança de 1 ano, brilhante e curiosa, a Hannah era uma menina feliz que estava quase a completar o seu 7º aniversário.

Mas tudo mudou num piscar de olhos…

Logo após ter completado 7 anos, a Hannah foi diagnosticada com um tumor no cérebro e no sistema nervoso central chamado meduloblastoma, o cancro cerebral mais comum em crianças.

O tratamento foi brutal: cirurgia seguida de radioterapia e quimioterapia intensiva.

Devido ao meu emprego na Elekta, uma empresa que desenvolve e vende hardware e software para terapia de radiação, conhecia bem os tratamentos a que a minha filha seria sujeita. Lembro-me, com carinho, de ajudar a tratar crianças como a Hannah no decorrer do meu trabalho e sabia, em primeira mão, a dor de ver uma criança a lutar contra o cancro.

Dada a minha formação, sinto que tive uma pequena vantagem sobre outras famílias que enfrentam o cancro infantil, pois tinha conhecimento e contatos fiáveis que me ajudaram a verificar e validar os meus medos e expetativas.

Mas a minha formação não foi suficiente para me preparar para tudo aquilo que a nossa família passou.

Infelizmente, a Hannah foi um daqueles casos onde tudo o que podia correr mal, correu. A minha filha morreu, cercada pela família, num dia solarengo de março de 2018, apenas 9 meses após o seu diagnóstico.

Hannah tinha 7 anos quando faleceu devido a um meduloblastoma. – Fonte: DR

Quando as pessoas pensam em cancro infantil, provavelmente pensam em crianças carecas e em dor. E, embora isso também seja verdade, não é tudo. As alas de oncologia pediátrica também podem ser lugares felizes, principalmente graças às pessoas fabulosas que lá trabalham.

Além disso, as famílias, mesmo infelizes, tentam fazer de tudo para que aquelas crianças vivam de forma o mais normal possível. Mas, o que queremos para os nossos filhos nem sempre é aquilo que eles realmente têm.

A verdade é que o cancro infantil troca a alegria por sorrisos fracos, as brincadeiras por rotinas intermináveis ​​de remédios e batalhas constantes contra a dor.

O cancro infantil é uma longa permanência solitária em quartos de hospital e esforços desesperados para manter as crianças que sofrem por estarem isoladas de tudo o que lhes é familiar.

O cancro infantil é segurar a mão dos nossos filhos enquanto eles gritam com dor; é dar voltas infinitas pelos corredores dos hospitais; é sentir que minutos parecem horas. O cancro infantil são cicatrizes, tubos e fios.

O cancro infantil são pesquisas na Internet a meio da noite e pedidos desesperados por respostas de médicos que, no fundo, já sabemos que não existem.

O cancro infantil é, infelizmente ainda em muitos casos, despedidas e últimos beijos.

Quando o cancro infantil invade a nossa família, todos passamos a viver o drama da falta de financiamentos para a pesquisa; a maioria dos medicamentos usados ​​para tratar esta doença foi desenvolvida há décadas atrás. E os tratamentos disponíveis para as crianças são brutais e podem causar efeitos secundários debilitantes e duradouros para aqueles que sobrevivem.

É preciso fazer muito melhor pelas crianças que lutam, hoje em dia, contra o cancro. E também é preciso fazer muito mais por aqueles que ainda irão ser diagnosticados.

Terei sempre orgulho no percurso da minha filha.

A Hanna foi incrível, e tentou superar tudo o que a vida pôs no seu caminho com um sorriso no rosto.

Ela ensinou-nos muito coisa sobre a vida, sobre o amor e, principalmente, sobre a esperança.

E a esperança que ela nos deu foi o que nos salvou durante os seus tratamentos e no momento em que lhe demos o último abraço.

O último beijo.

Texto redigido por Paul Barry, pai de uma menina que sucumbiu a um cancro cerebral

Fonte: Yahoo

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