Atividade física pode melhorar cognição de sobreviventes de cancro infantil

Após os tratamentos oncológicos, os sobreviventes de cancro pediátrico, de uma forma geral, apresentam disfunções neurocognitivas que podem persistir durante anos.

Este grupo pode ter problemas de memória, atenção, função executiva, velocidade de processamento e integração visual e motora.

Além disso, os sobreviventes relatam uma menor participação em atividades físicas do que os seus irmãos saudáveis, o que pode afetar o bem-estar psicossocial e aumentar o risco de doenças crónicas.

“Nos últimos anos, um crescente corpo de pesquisa mostrou quais os benefícios da atividade física para o cérebro. Esses resultados deixaram-me inspirada, pois sugeriam que as pessoas poderiam ter algum controlo sobre a sua função cognitiva – e através de um meio acessível à maioria. Nessa altura, eu estava a trabalhar com sobreviventes de cancro infantil que estavam a enfrentar dificuldades cognitivas no dia a dia. Por isso, quis perceber se a atividade física poderia ser uma abordagem eficaz para gerenciar esses desafios”

As palavras são da investigadora Emily Barlow-Krelina, da Universidade de York, no Reino Unido, que, juntamente com Kim Edelstein, do Princess Margaret Cancer Centre, no Canadá, e outros colegas, estudaram o impacto da atividade física na função cognitiva entre 12 123 sobreviventes de cancro infantil que estavam matriculados no Childhood Cancer Survivor Study.

Numa entrevista publicada na Healio, as duas cientistas explicaram as implicações das suas descobertas.

O que vos inspirou a conduzir este estudo?

Kim Edelstein: Os sobreviventes de cancro infantil questionam-nos frequentemente sobre o que podem fazer para melhorar as suas habilidades de pensamento e geralmente ficam surpresos quando a nossa recomendação passa pela prática de exercício físico. A relação entre a atividade física e a cognição tem sido demonstrada em muitos grupos diferentes de pacientes, incluindo pacientes oncológicos, embora pouco se saiba sobre esse assunto entre sobreviventes de cancro pediátrico. Mas acreditamos que chegou a hora de nos questionarmos sobre estes assuntos, e Childhood Cancer Survivor Study oferece uma grande oportunidade de aprender mais sobre estes resultados a longo prazo, devido ao diagnóstico detalhado, tratamento e outras informações que estão disponíveis. O Childhood Cancer Survivor Study é um recurso que serve para promover e facilitar a pesquisa entre sobreviventes a longo prazo de cancro que foram diagnosticados durante a infância e a adolescência.

Consegue explicar o porquê de os sobreviventes de cancro infantil serem menos fisicamente ativos do que os seus irmãos saudáveis?

Kim Edelstein: O cancro pode afetar a maneira como nos movemos, sentimos e pensamos. Isso pode ser devido ao próprio cancro ou aos efeitos secundários decorrentes dos tratamentos, que podem variar entre fadiga e, em casos extremos, amputações. O cancro e os tratamentos oncológicos também podem afetar o desenvolvimento das crianças, tanto a nível físico como a nível mental; ou seja, os sobreviventes de cancro infantil podem ser menos ativos do que os seus irmãos saudáveis devido aos efeitos diretos do cancro na capacidade de se mover ou aos efeitos indiretos do tratamento em outros fatores importantes para a atividade física, como a resistência e a motivação.

Qual a razão pela qual as associações entre a atividade física e os problemas neurocognitivos serem observadas de uma maneira mais consistente em sobreviventes de cancro em comparação com os seus irmãos saudáveis?

Emily Barlow-Krelina: Penso que, como os sobreviventes têm uma maior incidência de problemas neurocognitivos, existe mais potencial para a atividade física exercer efeitos benéficos. Embora os irmãos mostrem um potencial de aprimoramento da função cognitiva com mais atividade física, à partida eles irão relatar menos problemas; por outro lado, para os sobreviventes, o envolvimento em atividades físicas também pode oferecer proteção contra problemas cognitivos que poderiam ser relatados. Essa associação foi particularmente forte entre os sobreviventes de cancro no sistema nervoso central.

Têm alguma teoria sobre o mecanismo dessa associação?

Emily Barlow-Krelina: Existem vários mecanismos que foram propostos para explicar a relação entre a atividade física e a cognição, embora uma das principais teorias aponte para fatores de crescimento cerebral. Esses compostos são libertados, com uma maior extensão, em pessoas mais ativas e ligadas ao aumento do fluxo sanguíneo no cérebro, maior conetividade entre neurónios e mecanismos de reparo aprimorados. A atividade física também mostrou efeitos anti-inflamatórios e está associada a um stress reduzido e a um melhor humor, por isso é muito possível que vários desses mecanismos atuem juntos.

A atividade física consistente parece ter o maior efeito. Isso significa que a atividade física deve ser mantida ao longo do tempo para ser verdadeiramente eficaz?

Emily Barlow-Krelina: Estas descobertas sugerem que, para obter os maiores benefícios na função cognitiva, deve-se trabalhar para manter a atividade física ao longo do tempo. No entanto, a atividade física em qualquer momento parece ter algum impacto cognitivo, sendo que uma atividade física de intensidade elevada mostrou ter efeitos mais fortes.

Com base nestas descobertas, quais as recomendações que dariam aos sobreviventes de cancro infantil?

Emily Barlow-Krelina: É importante saber sobre como adotar uma abordagem sustentável para aumentar a atividade. Os nossos resultados mostram alguns padrões de associação promissores entre a atividade física e a função cognitiva em sobreviventes de cancro infantil, mas é importante observar que o nosso estudo se focou principalmente em informações subjetivas, que foram relatadas pelos participantes. Mais pesquisas serão necessárias para confirmar estas descobertas.

Fonte: Healio

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