Aprender com a COVID-19: a necessidade de acelerar a investigação na oncologia pediátrica

Uma das poucas coisas positivas que a pandemia da COVID-19 nos trouxe foi termos conseguido perceber que é possível fazer chegar, em pouquíssimo tempo, terapias e vacinas desenvolvidas em tempo recorde.

Vou falar especificamente do regulador de saúde norte-americano, a FDA, que tem desempenhado um papel essencial e que tem feito todos os possíveis para flexibilizar e agilizar atividades e processos sem nunca sacrificar a segurança.

Esse esforço deve ser reconhecido e aplaudido, mas não podemos deixar que esta organização (e outras ao redor do mundo) se fiquem por aqui.

Eu sou mãe. Uma mãe que viu o seu filho de 9 anos morrer de leucemia, após 4 anos a ser submetido a terapias agressivas, incluindo três transplantes de medula óssea.

O meu filho chamava-se Zach e é em nome dele que eu exorto os governos e a indústria biofarmacêutica a aplicar um espírito semelhante àquele usado na luta à COVID-19, baseado na inovação, noutro desafio crítico: a luta do cancro infantil.

Apesar de já termos assistido a grandes progressos, o cancro continua a ser a causa número 1 de morte relacionada à doença em crianças. Infelizmente, mesmo aqueles que sobrevivem, podem vir a ser obrigados a enfrentar efeitos secundários debilitantes, como cancros secundários ou morte prematura.

Vejamos o caso de um rapaz, o Brennan Simkins. Diagnosticado com leucemia mieloide aguda aos 7 anos, o Brennan, agora com 18 anos, foi submetido a 4 transplantes de medula óssea. Embora tenha sobrevivido, este jovem luta hoje contra problemas cognitivos, convulsões, cataratas, crescimento atrofiado, fadiga, problemas pulmonares e de tiroide, diabetes e muitas outras condições decorrentes do tratamento oncológico.

E sabem o que é pior? Estes efeitos secundários tardios praticamente não mudaram nos últimos 30 anos.

Hoje, o Brennan está focado em viver, em ter uma vida independente, ainda que a sua existência o leve, muitas vezes, à exaustão.

Infelizmente, existem milhares, talvez milhões de Brennans espalhados pelo mundo; são, também eles, sobreviventes de cancro infantil que enfrentam desafios semelhantes.

Essas crianças tiveram de confiar em terapias altamente tóxicas criadas há décadas que, na sua maioria, foram projetadas para adultos, testadas em adultos e que, posteriormente, foram aproveitadas para a oncologia pediátrica.

Ainda hoje, e apesar dos avanços pioneiros – e até inspiradores – como a quimioterapia ou os transplantes de medula óssea, as crianças são “empurradas” para o fim da fila no que toca a ensaios clínicos, esperando, em média, 6,5 ​​anos a mais do que os adultos para poderem ter acesso a esses tratamentos experimentais.

Entre essas terapias promissoras estão agentes direcionados, como inibidores de moléculas, anticorpos monoclonais e terapias celulares que podem melhorar as taxas de sobrevivência e de cura com uma toxicidade reduzida.

Apesar das suas contribuições históricas e de estarem dispostas a serem as pioneiras, as crianças que lutam contra o cancro não são priorizadas, nem totalmente consideradas, no desenvolvimento e teste de medicamentos.

Isso tem que mudar. E nós, hoje, sabemos que isso é possível.

Vejamos o que aconteceu quando os reguladores de saúde, os serviços nacionais de saúde, as empresas biofarmacêuticas e tantos outros se associaram para resolver um problema.

Ao ver o que aconteceu com estas aprovações ultrarrápidas de vacinas e terapias para a COVID-19, não consigo deixar de me questionar se não podemos aumentar o ritmo e fazer mais pelas crianças com cancro?

Para muitos pais, o cancro infantil é uma autêntica pandemia.

Os reguladores de saúde precisam de adotar a flexibilidade, a criatividade e a urgência que aplicaram à Covid-19 no que toca ao desenvolvimento de medicamentos contra o cancro, especialmente em terapias de precisão para cancros infantis, tratamentos que oferecem uma grande esperança e que já provaram ser eficazes contra as formas mais comuns de leucemia infantil.

Maximizar e acelerar os benefícios da medicina de precisão na oncologia pediátrica não pode ser alcançado se estivermos presos a modelos tradicionais de desenvolvimento de medicamentos, a regras rigidas para a construção de ensaios clínicos e a formas desatualizadas de fazer negócios. Espero, sinceramente que, com esta pandemia, os reguladores de sáude se tenham apercebido disto.

Crianças com cancro, especialmente aquelas com subtipos raros e de prognóstico reservado, precisam que os reguladores sigam a ciência e que explorem novas maneiras de considerar as circunstâncias únicas em que estas crianças estão inseridas.

Tal como as terapias de tamanho único não são suficientes para todos os pacientes com cancro, a orientação para o desenvolvimento de medicamentos e as abordagens escritas, principalmente para os adultos, também ficam aquém das necessidades das crianças.

A diretriz atual publicada pela FDA para o desenvolvimento de fármacos para o tratamento da leucemia mieloide aguda menciona brevemente as crianças, mas não tem em consideração a biologia desta doença única em crianças, que difere significativamente dos adultos, bem como a sua resiliência geral e resposta à terapia. Ao contrário do que acontece nos adultos, estudos mostram que as crianças podem e conseguem suportar vários ciclos de quimioterapia agressivos.

As crianças com cancro querem viver e muitas vezes estão dispostas a se sacrificar e a assumir riscos significativos para o conseguirem.

É preciso que os protocolos de tratamento tenham em conta a biologia infantil, a resiliência do paciente e o menor número de crianças elegíveis para se inscrever em ensaios clínicos.

Os reguladores de saúde precisam de trabalhar com oncologistas pediátricos, com grupos de apoio, com comunidades várias para criar orientações específicas para a pediatria que correspondam às realidades dos protocolos de crianças que, como já disse, diferem significativamente dos adultos.

O Zach teria aceite mais opções, teria corrido mais riscos. Mas isso não lhe foi dado. Não nos foi dado. Eu sei que, tal como o Zach e a nossa família, muitas outras crianças com cancro e as suas famílias fariam o mesmo.

O cancro infantil é nosso pesadelo recorrente, é a nossa pandemia e, todos os dias, pedimos para que ele seja tratado como tal.

Texto redigido por Julie Guillot, uma colaboradora do Children’s Oncology Group.

Fonte: STAT News

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