A relação entre a leucemia e crianças com síndrome de Down

A leucemia linfoblástica aguda é o tipo de cancro mais comummente diagnosticado em crianças, sendo que crianças com trissomia 21, ou síndrome de Down, têm uma probabilidade entre 10 a 20 vezes maior de desenvolver a doença do que crianças sem síndrome de Down.

Historicamente, as crianças com síndrome de Down e leucemia linfoblástica aguda não só sofrem mais complicações decorrentes do tratamento, como também têm taxas de sobrevivência menores.

Mas agora, dois investigadores do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, Karen Rabin e Philip Lupo, querem mudar esse paradigma.

“As crianças com síndrome de Down destacam-se como uma subpopulação, dentro da população afetada por leucemia linfoblástica aguda, que ainda é um pouco misteriosa. Não se sabe o motivo por que elas têm um risco aumentado de desenvolver leucemia, embora isso seja reconhecido desde a década de 1950”, explicaram os cientistas.

Embora vários estudos tenham tentado explicar esse mistério, não existe uma resposta concreta; neste estudo, os dois cientistas, juntamente com uma equipa de pesquisa, descobriram novas pistas que sugerem explicações para esse mistério ainda não resolvido.

“Realizámos um estudo de associação ampla do genoma (GWAS) que nos permitiu procurar diferenças genéticas entre crianças com síndrome de Down e crianças com síndrome de Down com leucemia linfoblástica aguda que possam explicar o aumento da suscetibilidade à leucemia linfoblástica aguda na síndrome de Down”, disse Karen Rabin, que também é diretora do Programa de Leucemia do Hospital Infantil do Texas, nos Estados Unidos.

“O raciocínio era o seguinte: se encontrássemos casos de síndrome de Down e leucemia linfoblástica aguda com uma percentagem maior de certas variantes genéticas que não estavam presentes em crianças com síndrome de Down que não tinham leucemia linfoblástica aguda, poderíamos inferir que essas variantes genéticas seriam importantes para o desenvolvimento deste tipo de leucemia.”

Mas este foi um longo processo… para conduzir um estudo do tipo GWAS, os cientistas necessitaram de um grande número de casos e de controlos. Demorou vários anos, mas os investigadores conseguiram reunir cerca de 500 casos de crianças com síndrome de Down e leucemia linfoblástica aguda e mais de 1000 casos de controlo, ou seja, crianças com síndrome de Down sem diagnóstico de leucemia linfoblástica aguda. Estes números foram alcançados graças a colaborações com outras instituições.

Estudos anteriores de GWAS examinaram as variantes genéticas que aumentam o risco de leucemia linfoblástica aguda na população infantil em geral (crianças que sem síndrome de Down); esses estudos identificaram vários genes associados a um maior risco de leucemia linfoblástica aguda.

Encontrámos 4 variantes genéticas fortemente associadas ao risco de leucemia linfoblástica aguda em crianças com síndrome de Down. Embora esses genes tenham sido previamente identificados em estudos de leucemia linfoblástica aguda em crianças sem síndrome de Down, os efeitos foram muito mais fortes no nosso estudo”, disse Philip Lupo, que também é o diretor do Programa de Prevenção e Epidemiologia de Cancro Infantil no Hospital Infantil do Texas.

Os cientistas decidiram analisar mais de perto 2 desses genes e descobriram, por exemplo, que crianças com síndrome de Down portadoras de uma variante específica do gene CDKN2A têm um risco 1,7 vezes maior de desenvolver leucemia linfoblástica aguda do que crianças sem síndrome de Down portadoras da mesma variante.

O segundo gene que se destacou para os cientistas foi o IKZF1, um gene conhecido por estar envolvido no desenvolvimento de células B, um tipo de célula imune que normalmente se transforma em células leucémicas nos casos de leucemia linfoblástica aguda.

O estudo descobriu novas especificações deste gene que não haviam sido descritas antes. Por exemplo, em laboratório, os cientistas estudaram o efeito de reduzir a expressão do gene IKZF1 em células derivadas de indivíduos com ou sem síndrome de Down; desta forma, descobriram que a redução da expressão de IKZF1 resultou em taxas de proliferação significativamente mais altas em crianças com síndrome de Down.

Uma caraterística das células cancerígenas é a sua maior taxa de proliferação; portanto, esses resultados sugerem um mecanismo pelo qual alterações na expressão de IKZF1 podem contribuir para o desenvolvimento de leucemia linfoblástica aguda.

Embora ainda haja muito para descobrir, os cientistas estão otimistas.

“As nossas descobertas dão-nos pistas para explicar o porquê desses genes parecerem ser importantes para causar leucemia em crianças com síndrome de Down. Ter uma melhor compreensão desse mistério médico pode ajudar-nos a desenvolver testes capazes de identificar crianças em maior risco de desenvolver leucemia, e descobrir caminhos celulares com o potencial de se tornarem alvos de tratamento”, disseram os cientistas.

“Estes resultados servirão como estruturas para futuras avaliações que, esperamos, melhorem os resultados entre estas crianças”.

Fonte: Eurekalert

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