A perda auditiva em sobreviventes de cancro infantil

Investigadores estão a tentar compreender melhor de que forma um medicamento quimioterápico, a cisplatina, atua em sobreviventes de cancro infantil, com o objetivo de eliminar um dos efeitos secundários mais recorrentes do tratamento oncológico: a perda auditiva.

Uma equipa de investigação da Universidade de Alberta, no Canadá, identificou um recetor nas células que poderia ajudar a minimizar esse efeito, caso seja inibido em pacientes pediátricos que recebem cisplatina.

A cisplatina é um medicamento quimioterápico usado com frequência devido à sua eficácia comprovada; indicado para o tratamento de tumores sólidos pediátricos, este fármaco contribui para uma taxa de sobrevivência de 80% a 5 anos, de acordo com vários investigadores.

O maior calcanhar de Aquiles deste medicamento são os efeitos secundários que provoca: quase 100% dos pacientes que recebem doses mais altas deste fármaco apresentam algum grau de perda auditiva permanente.

“Se formos capazes de prevenir este efeito, iremos melhorar drasticamente a qualidade de vida dos sobreviventes”, afirmou um dos cientistas envolvidos no estudo.

De acordo com estudos publicados, várias investigações tentaram eliminar este efeito secundário examinando-o geneticamente e determinando os fatores de risco subjacentes para a perda auditiva. Algumas investigações quiseram determinar a progressão da perda auditiva como um efeito secundário, mas o fator instigador da perda auditiva permanece desconhecido.

Para tentar resolver essa questão, os cientistas da Universidade de Alberta analisaram a composição química da cisplatina – esta metodologia tornou possível a identificação de um recetor específico ativado por este fármaco.

Esse recetor é chamado de recetor TLR4 e está envolvido na resposta imunitária do corpo. O TLR4 atravessa a membrana celular, deixando uma parte de si mesmo fora da célula para procurar vários sinais que indicam dano ou perigo.

“É um recetor que o corpo normalmente usa para detetar a existência de algum tipo de problema, como uma infeção. O corpo ativa este recetor e começa a produzir sinais que informam a célula de que ela está sob stress. Infelizmente, no caso da cisplatina, esses sinais acabam por levar à morte das células responsáveis ​​pela audição”.

As células afetadas pelos sinais do TLR4 estão localizadas na cóclea do ouvido, onde funcionam traduzindo vibrações em impulsos elétricos. A cisplatina também se acumula nos rins, mas pode ser eliminada e diluída.

Os cientistas observaram que, em sistemas fechados como o ouvido, o medicamento acumula-se e danifica as células.

“Estas células não se renovam, daí que a perda auditiva experimentada por estes sobreviventes seja permanente”.

De acordo com os cientistas, a única forma de prevenir os danos é interrompendo os sinais produzidos pelo TLR4 que levam à acumulação de cisplatina.

Para confirmar esta teoria, os investigadores usaram modelos de peixe-zebra para examinar células sensoriais que se comportam de forma semelhante às células humanas normalmente danificadas pela cisplatina.

Ao realizarem esta experiência, os cientistas conseguiram provar que a inibição de TLR4 levou a uma inibição do dano nas células sensoriais.

“Acreditamos que, com esta descoberta, poderemos desenvolver novas terapias que irão, certamente, minimizar os efeitos cisplatina em sobreviventes de cancro infantil”, afirmaram.

Fonte: Pharmacy Times

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