A imunoterapia e o combate ao cancro infantil

“O progresso da imunoterapia tem sido feito a ritmo acelerado, mas apenas agora vamos começar a investigar a sua eficácia em tumores sólidos”.

Estas são as palavras de Katie Albert, investigadora e especialista em Hemato-oncologia no Seattle Children’s Hospital, nos Estados Unidos.

A principal diferença entre tumores sólidos e malignidades hematológicas é uma carga maior de células tumorais circulantes; os tumores sólidos têm uma barreira imunológica adicional, o que torna mais difícil a proliferação de células T.

As crianças não são “adultos em ponto pequeno”

Hoje, mais do que nunca, os oncologistas enfrentam desafios únicos quando lidam com uma população pediátrica, pois os mesmos cancros em crianças e adultos podem ser causados ​​por diferentes genes.

Michael Jensen, diretor do Ben Towne Center for Childhood Cancer, parte integrante do Seattle Children’s Research Institute, explica que “os tumores sólidos têm heterogeneidade. Mesmo numa só criança, algumas células cancerígenas não expressam antigenes necessários para que as células T os eliminem”.

Segundo Michael Jensen, os investigadores deveriam concentrar-se em desenvolver diferentes tipos de células T para eliminar todos os tipos de células cancerígenas da criança. Contudo, no caso de os pacientes serem bebés, existe a questão de eles terem, ou não, células T suficientes para extrair e usar no tratamento.

“Para além disso, no caso de tumores recidivados, pode ser difícil adotar este tipo de terapias”, continuou Michael Jensen, alertando para o fato de que alguns pacientes, após tratamentos de quimioterapia e/ou radioterapia, não têm células T saudáveis ​​para extrair.

Outro obstáculo para o desenvolvimento de novas imunoterapias que combatam o cancro infantil está relacionado com o regulador de saúde norte-americano (FDA), que estipulou que as imunoterapias são, obrigatoriamente, testadas primeiro em adultos.

“Todas as pessoas querem mais estudos e ensaios relacionados com a oncologia pediátrica, mas a verdade é que há uma grande barreira regulamentar”, disse Stephen Gottschalk, diretor do Departamento de Transplantes e Terapia celular do St. Jude’s Children’s Research Hospital., que afirma que estudos paralelos poderiam solucionar esta questão.

Glioblastoma: um caso de sucesso moderado

Stephen Gottschalk fez parte de uma equipa que estudou o recetor de antigene quimérico específico para HER2 (CAR) – células T específicas para vírus, modificadas em pacientes com glioblastoma progressivo. O estudo foi realizado pelo Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, e publicado na revista JAMA Oncology.

“Há alguns dados que afirmam que o glioblastoma é positivo para o vírus”, observa o médico; as células T específicas do vírus podem ser ativadas fora do tumor por outras células que reconhecem o vírus.

O estudo de 17 pacientes incluiu 10 pacientes com menos de 18 anos; nesta investigação em particular, não foram encontradas diferenças na forma como pacientes pediátricos e pacientes adultos responderam ao tratamento.

Os resultados do estudo também mostraram que alguns dos pacientes que estabilizaram sobreviveram mais do que a média. A maioria dos glioblastomas progride e os pacientes falecem entre 12 a 15 meses após o diagnóstico.

Ainda assim, a “estabilização da doença é um critério significativo em tumores sólidos. Se os tumores não crescem por 4-5 meses, há um benefício significativo”, explicou Stephen Gottschalk

Ir para além do cérebro

Atualmente, existem 2 estudos que estão a analisar opções de imunoterapia para crianças e adultos jovens com tumores sólidos recidivantes / refratários.

No Seattle Children’s Hospital, Katie Albert lidera uma equipa que estuda a terapia de células T CAR para 15 tipos diferentes de tumores sólidos, exceto tumores do Sistema Nervoso Central; o estudo foi intitulado STRIvE-01.

O STRIvE-01 é um ensaio experimental que envolve pacientes cujas terapias padrão falharam; a prioridade do estudo é determinar a segurança e a viabilidade da terapia.

Desde fevereiro de 2019, os investigadores examinaram cerca de 30 pacientes, mas ainda não trataram nenhum dos doentes; para o estudo, os investigadores procuraram candidatos com uma super-expressão dos recetores do fator de crescimento epidérmico nas células tumorais, o que ocorre em aproximadamente 15% dos tumores sólidos pediátricos.

Uma nova abordagem para o tratamento do cancro do fígado

No Texas Children’s Hospital, investigadores estudam, há já algum tempo, a terapia com células T CAR para pacientes com tumores hepáticos recidivantes / refratários e recetores Glypican-3.

Cancro do fígado pediátrico é raro, sendo que, nos Estados Unidos, cerca de 250 casos são diagnosticados a cada ano. Para pacientes diagnosticados precocemente, a taxa de cura é de 80%. As probabilidades não são tão otimistas para pacientes com tumores hepáticos recidivantes / refratários.

“Vindo de um laboratório de imunoterapia, pensei se seria possível desenvolver algo novo para estes pacientes?”, disse Andras Heczey, investigador e docente no Baylor College of Medicine e diretor do Programa de Tumores no Texas Children’s Hospital.

A biologia dos tumores hepáticos pediátricos e adultos é diferente.

“Nos últimos 20 a 30 anos não apareceram novos fármacos de primeiro plano, por isso devemos fazer esforços para ter medicamentos mais eficazes e menos tóxicos para os pequenos pacientes.”, explicaram os cientistas.

A equipa espera imitar o sucesso da imunoterapia para leucemia recidivante / refratária, considerada o padrão ouro da imunoterapia para o cancro pediátrico.

Apesar dos progressos, os investigadores alertam que será preciso algum tempo até que os ensaios saiam dos laboratórios para a sociedade. No entanto, garantem que existem desenvolvimentos muito importantes que serão essenciais para a eficácia da imunoterapia em casos de tumores sólidos pediátricos.

Fonte: Oncology Times

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