A hipótese de sobrevivência de uma criança não deve depender do sítio onde ela nasceu

Como a maioria dos meninos do seu bairro em San Salvador, Gabriel Alessandro Mayorga Hernandez – Gabo, para a família e amigos – adora futebol.

Mas, em 2014, pouco tempo antes de completar 12 anos, o rapaz sentiu-se exausto após uma curta partida de futebol com os seus amigos. Eventualmente, Gabo ficou demasiado cansado para jogar e começou a ter dores de cabeça tão fortes que o faziam vomitar.

Quando as dores de cabeça se transformaram em dores no peito e dificuldade em respirar, a sua avó levou-o ao médico, onde exames de raios X e de sangue indicaram que ele tinha leucemia linfoblástica aguda, um cancro sanguíneo que se desenvolve mais frequentemente em crianças pequenas.

Há uma década atrás, este diagnóstico poderia ter sido o fim da história do Gabo.

Enquanto em países desenvolvidos como os Estados Unidos foram feitos grandes avanços contra a leucemia linfoblástica aguda, e outros tipos de cancros infantis, esses avanços não chegaram a muitos países em desenvolvimento, alguns dos quais não têm recursos para tratar doenças complexas.

Nesses locais, os sintomas da leucemia são muitas vezes confundidos com malária. E mesmo quando os médicos diagnosticam a doença adequadamente, a quimioterapia e a radiação são escassas, e os transplantes de medula óssea são quase inexistentes.

O resultado desses déficits não é surpreendente, mas é impressionante.

Nos países ricos, 80% das crianças com doenças como a leucemia linfoblástica aguda sobrevivem; nos países pobres, 80% morrem.

Esta inversão marca uma das maiores disparidades de saúde do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que convocou uma reunião na Assembleia Geral das Nações Unidas para discutir a questão.

“No caso da leucemia infantil, o maior preditor de sobrevivência é o local onde se nasceu”, disse Carlos Rodriguez-Galindo, vice-presidente executivo do St. Jude Children’s Research Hospital. “Estamos a falar de milhares de crianças que morrem todos os anos devido a doenças que nós sabemos curar há décadas.”

Em El Salvador, o Carlos Rodriguez-Galindo e os seus colegas conseguiram reverter esse cálculo, através de uma parceria com o governo do país; como resultado, El Salvador teve um sucesso incomum para um país pobre: a taxa de sobrevivência para casos de cancro infantil aumentou drasticamente, de 5% em 1993 para 48% atualmente.

Em 2014, quando o Gabo adoeceu, os médicos em San Salvador sabiam como diagnosticar a doença e oncologistas pediátricos estavam disponíveis para tratá-lo. O rapaz recebeu um atendimento especializado semelhante ao que receberia em qualquer país desenvolvido.

Um mês após o diagnóstico, Gabo entrou em remissão.

Esta semana, o St. Jude Children’s Research Hospital anunciou uma parceria de 5 anos e 15 milhões dólares (cerca de 12,9 milhões de euros) com a OMS, com a finalidade de expandir este sucesso. O objetivo é curar pelo menos 60% das crianças em todo o mundo com os seis tipos mais comuns de cancro, incluindo leucemia linfoblástica aguda, até 2030, utilizando ferramentas e conhecimentos que há muito tempo são comuns em países mais ricos: treino e equipamentos básicos para médicos, acesso a fármacos e outras tecnologias, e apoio e acompanhamento de pacientes.

Esta colaboração marca uma abertura nas fronteiras institucionais, até porque a OMS raramente se alia a organizações sem fins lucrativos externas.

Mas, neste caso, o St. Jude Children’s Research Hospital tem um extenso conhecimento especializado que é claramente melhor quando compartilhado e a OMS tem décadas de experiência a trabalhar em países marcados pela pobreza extrema. Juntas, estas entidades estão bem equipadas para finalmente fechar esta lacuna de sobrevivência indesculpável.

Mas o seu sucesso dependerá de várias outras entidades: dos governos, que precisam de dar prioridade a doenças não transmissíveis, como o cancro, e de trabalhar mais para fornecer uma cobertura universal de saúde; das indústrias de medicamentos, que precisam de fazer algo em relação aos preços dos tratamentos; e dos países ricos, que precisam de contribuir com recursos próprios para o esforço.

Se os líderes mundiais pudessem reconhecer estes benefícios, centenas de milhares de crianças em todo o mundo poderão ter a mesma oportunidade que o Gabo.

Há muito que ele voltou a jogar futebol. E neste outono, entrou para o ensino secundário.

Neste momento, o Gabo tem uma vida inteira pela frente.

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